top of page

EU QUE FIZ

Meu pai sempre fez questão de cortar pela raiz todas as minhas vergonhas. Ele sempre quis que eu e tornasse um jovem capaz de fazer tudo o que eu quisesse e para isto talvez tenha usado alguns métodos peculiares. Por exemplo, todo mundo tem aquela faze de adolescente em que todos os colegas já vão sozinhos pra escola e, por isto, sente vergonha quando o pai resolve levar até a porta do colégio. E eu me lembro do meu pai me levando um dia, parando o carro na frente de todos os meus amigos, me dando um beijo estalado na bochecha e berrando da janela que me amava. “Te amo filho!” Ele fazia de propósito. E ele fez isto durante toda a minha adolescência, depois na faculdade e até a minha fase adulta. Uma vez, eu já tinha uns vinte e poucos anos, ele apareceu na academia de jiu-jitsu que eu treinava e pediu pro treinador me chamar dizendo que estava na hora da minha mamadeira. Meu mestre (também sacana) virou pra todo mundo do tatame e gritou: “Ô Diogo! Seu pai está te chamando pra tomar a mamadeira!” Na hora eu rí, claro, mas não sabia onde enfiar a minha cara de tanta vergonha. Na verdade, ele tinha esquecido as chaves dele em casa, estava trancado do lado de fora, e precisava das minhas. Ele fez aquilo de propósito! Ele era professor universitário na faculdade de engenharia agrícola e uma vez eu, curioso, fui assistir uma aula dele. Eu fiquei na última cadeira em um canto escuro da sala pra não atrapalhar e não ser notado. Em um determinado momento da aula ele colocou uma fita cassete pra rodar em uma televisão e passou uma parte de um programa Globo Rural que ele tinha gravado para comentar com os alunos. De repente, o programa que estava passando acaba, a fita dá uma arranhada e começa a passar um vídeo de quando eu era pequenininho brincando e correndo com uns cachorrinhos. Imediatamente todo mundo suspira achando aquela cena bonitinha e alguns soltam um: “Que fofinho!” Lembro dele rindo e falando orgulhoso: “Eu que fiz.” Apontou pra mim no fundo da sala enquanto eu ficava como um pimentão de vergonha. Ele fez isso de propósito! Ele era assim, toda vez que ele andava na rua comigo e encontrava um amigo antigo ou desandava a conversar com algum desconhecido, ele me apresentava dizendo: “Tá vendo este aqui? Fui eu que fiz!” E a medida que o tempo foi passando eu fui sentindo cada vez menos vergonha daquelas manifestações que aparentemente tentavam me envergonhar. É claro que aquele método peculiar que ele usou em mim servia pra me ensinar que eu não devia/podia ter vergonha dele, mas agora eu entendo que eram todas manifestações públicas de afeto. Hoje eu sei que ele fazia aquilo tudo de propósito, mas não pra me envergonhar, ele queria propositalmente gritar que me amava, queria propositalmente dizer para todo o mundo que eu era filho dele, que ele não tinha vergonha, pelo contrário: ele tinha orgulho! Eu penso em repetir tudo isto com minha filha (com algumas adaptações claro), mas como ela é muito pequenininha ainda não entende. Eu sei que um dia quando for adolescente pode ser que sinta alguma vergonha, mas tenho certeza que quando se tornar adulta vai entender que o maior orgulho de um pai é o seu filho. E nós temos e devemos gritar para o mundo, conscientemente e propositalmente, que nós amamos nossos filhos. E isto não é motivo de vergonha. E é por isto que quando eu esbarro com alguém na rua ou quando uma velhinha fala que minha filha é bonita eu inflo o peito e respondo com orgulho: “Eu que fiz”! 11/10/2019 (Crônica n° 14) Diogo Braga Crônicas Crônicas em podcast , Spotify ( Braga Crônicas ), Instagram (@DiogoBragaCronicas ) e Youtube ( Braga Crônicas ). Medium ( @bragacronicas ). Site/Blog: diobobragacronicas.com . Email: bragacronicas@gmail.com . NewsLetter: https://tinyletter.com/DiogoBragaCronicas . -> E se você se identificou ou gosta das histórias que eu conto, comenta, salva, compartilha, se inscreve, ativa as notificações, mostra pro coleguinha, faz tudo e me ajuda a espalhar a palavra! E se você quer compartilhar uma história sua comigo, me manda um e-mail para bragacronicas@gmail.com ou me envia um áudio pelo direct do instagram que é @diogobragacronicas. No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!

EU QUE FIZ
bottom of page