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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

SOL DE NEON (Crônica n°40)

Atualizado: 9 de abr. de 2021

Las Vegas é uma cidade estranha. É uma experiência única e todo mundo que puder deveria visitar um dia, mas sua lógica é diferente. Você não vive a cidade, vive as atrações que estão ali, mas elas poderiam estar em qualquer lugar do mundo, porque não têm conexão com o lugar. Ficamos pouco tempo por lá, mas chegamos da melhor forma possível: de carro.


É interessante ver a paisagem rasteira monótona e monocromática se transformar em edifícios espelhados, castelos coloridos. É como se você pudesse estar em Nova York, Veneza e na Idade Média ao mesmo tempo, mesmo estando no centro dos Estados Unidos. E a cidade é quente como se estivesse no meio de um deserto, porque está. Então, o carro é melhor veículo possível para trafegar entre as atrações, porque têm ar condicionado.


E cada atração, cada cassino é um mundo próprio, com uma intensidade de luzes acesas 24h por dia, como um sol que nunca se apaga. É fácil perder a conexão com a realidade, viver somente as atrações e tirar as fotos para as redes sociais e esquecer que a lógica do lugar gera pobreza. Vivemos um pouco destas atrações, claro, faz parte, fomos em shows e festas, mas também procuramos visitar lugares de verdade.

Percorremos a decadente e Fremont Street para conhecer o lugar onde a cidade nasceu e admirar alguns de seus outdoors e placas das décadas de 50 a 70 que ainda vivem lá. Conhecemos a Fremont street experience que é uma parte da rua que foi coberta e que tenta conservar debilmente uma época em que era possível acessar os cassinos pela rua, andando a pé, algo inimaginável hoje em dia nos Bellagios ou Mandalay Bays da vida. É uma experiência que tenta mimetizar o glamour da strip, mas tem seu charme próprio e se agarra de alguma forma na sua história.


E lá perto fomos também em um museu. Imagine só ir a Las Vegas e perder tempo visitando museu! Mas neste museu, o Museu do Neon, definha uma expressão artística típica de Las Vegas. A entrada já é impressionante por sí, pois o edifício em forma de conchas consolida em concreto uma a memória de uma arquitetura esquecida chamada “googie” que queria se mostrar futurista. Ela dá acesso a um espaço aberto como um estacionamento e nele repousa no chão, sem pedestal ou proteção de vidro, as magníficas obras de arte. São letreiros de neon antigos de ferro e vidro retorcido, elaborados com o esmero de grupos de artistas que foram responsáveis por colorir e acender a paisagem da Las Vegas das décadas de 50 a 70. Ficam ali jogados ao tempo, maravilhosos, coloridos e enferrujados, pegando chuva e sol, formando corredores para os poucos turistas bobos que se importam apreciarem sua decadência que remete a um tempo em que podiam acender seus neons imponentes.


Las Vegas é uma cidade estranha, que não parece dar valor ao que realmente importa, protege seus mundos ilusórios com ar condicionados e sóis próprios acesos 24h por dia e deixa definhar ao tempo sua história e sua expressão artística mais característica. No cair da noite os novos outdoors e letreiros se acendem tentando mimetizar as luzes de neon de ontem, mas hoje são leds.

No último dia que fiquei em Las Vegas eu admirei, de carro, o sol alaranjado se deitando no céu do deserto, mas eu já não podia saber se era de led ou neon, ou se mimetizava alguma outra coisa. Era lindo e real e poderia estar em qualquer lugar do mundo que seria o mesmo. Aquele sol que parecia o sol, não parecia ter conexão com o lugar.

14/08/2020 (Crônica n°40)

Diogo Braga Crônicas



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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!

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