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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

SINUCA E A DANCINHA DA VITÓRIA (Crônica n° 25)

Atualizado: 19 de mai. de 2021

Meu pai era um exímio jogador de sinuca. Sinuca era um dos seus hobbies favoritos, coisa que herdou do seu pai, meu avô, que era um jogador melhor ainda. E assim como meu avô ensinou a ele as técnicas e estratégias de como jogar bem, meu pai também tentou me ensinar, mas eu nunca me tornei um jogador tão bom como ele.


Ganhar do meu pai em uma partida de sinuca era coisa rara. Coisa que acontecia uma vez outra, de forma espaçada, nunca em sequência. E como haviam outros apreciadores de sinuca na minha família, se tornou meio que uma tradição fazer uma pequena reunião no carnaval para a realização de um campeonato. Quem ganhasse levava o troféu de plástico vagabundo que meu pai tinha comprado.


Eu disputava estes campeonatos tentando botar em prática todos os ensinamentos que o meu pai tinha me passado, mas eu nunca ganhava. Meu pai, ao contrário, quase sempre ganhava todas as partidas. E eu me lembro que ele tinha uma dancinha da vitória que eu tinha que aturar toda vez que ele ganhava, ou seja, quase sempre. Assim que encaçapava a última bola vencendo o jogo, ele assentava o taco em cima do barrigão como se fosse um violão e tocava aquele instrumento imaginário dando passinhos curtos para um lado e pro outro.


“Para com isso ai pai! Não tem necessidade disso!” Eu falava com ele morrendo de raiva. Aquilo me corroía. Eu era (sou) competitivo. Eu queria ganhar, claro. E eu já disse (e sempre digo) que a dança é o ápice último da alegria, linguagem universal da felicidade. E aquela dancinha era o ápice da felicidade dele e a minha derrocada. Então, em um destes campeonatos eu fui disputar a final com o meu pai. Quem ganhasse a melhor de três partidas viraria o campeão, detentor do tradicional troféu de plástico, o rei da sinuca (da família) por um ano inteiro até o outro carnaval.


Eu estava nervoso e fui presa fácil na primeira partida. Tomei uma “cara de gato” (linguajar da sinuca para perder sem encaçapar uma única bola). Na segunda partida eu fiz jogo duro e acabei ganhando por pouco, muito pouco. A terceira, e decisiva, partida foi dominada por mim. Encaçapei todas as minhas bolas enquanto para o meu pai faltavam três.


Eu me lembro que quando eu percebi que tinha uma chance real de ganhar “tremi nas bases”. Acho que desconcentrei, sei lá, só sei que meu pai tirou a diferença e “matou” duas das três bolas restantes dele e encaminhou sua última bola pra beira de uma caçapa. Eu errei a minha jogada seguinte.


Não encaçapei minha última bola e meu pai teve a oportunidade de acabar o jogo e se sagrar campeão. Faltava uma unha pra bola dele cair, era uma jogada muito fácil. Eu já estava preparado pra ver ele performar sua dancinha da vitória tocando violão imaginário no taco de sinuca. Então ele preparou... se inclinou quase raspando o queixo no taco para mirar melhor... e bateu na bola.


Eu lembro daquele momento como se fosse um momento final de um filme de ação em que todas as imagens passam em câmera lenta. A bola branca se aproximando da colorida na boca da caçapa e... ERROU!


Ele, inacreditavelmente, errou a bola e eu tive a chance de ganhar o jogo. E foi fácil. Encaçapei a última bola e assentei o taco em cima da MINHA barriga como se fosse um violão e dancei a dancinha da vitória. Lembro que eu exagerei na comemoração, cheguei até a soltar os cachorros da casa que fizeram um escarcéu, dançaram comigo celebrando o meu troféu de plástico e o meu título de rei da sinuca (da família) até o próximo carnaval.


Mas meu pai, ao contrário do que eu pensava, em nenhum momento demostrou tristeza por ter perdido, pelo contrário, me cumprimentou, me abraçou e disse: “Parabéns meu filho, agora você pode falar que sabe jogar sinuca”.


E eu até hoje desconfio de que ele possa ter errado de propósito àquela última jogada, só pra eu ser o campeão. E eu vi nos seus olhos, quando ele me parabenizou, que a felicidade dele era maior que a minha. E hoje que eu tenho a minha filha eu sei o porquê. Porque a felicidade do pai é sempre maior quando a dancinha da vitória é a do seu filho. É o ápice último da alegria.

02/10/2019 (Crônica n° 25)

Diogo Braga Crônicas


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