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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

SACRIFÍCIO HUMANO (Crônica n°43)

Atualizado: 9 de abr. de 2021

Sacrifício humano. Era o que fazíamos com minha mãe na praia.


Toda vez que íamos na praia tinha sacrifício humano. Esperávamos minha mãe ir mergulhar no mar ou ao quiosque comprar alguma coisa para armar o ritual, então, eu e minha irmã cavávamos o maior buraco que conseguíamos com nossas mãozinhas de criança e o cobríamos com a canga (ou toalha) dela.


Quando ela chegava comíamos todas nossas unhas de ansiedade esperando ela sentar. As vezes, quando voltava, ela já ia sentando em alguma cadeira de praia e o meu pai, cúmplice do sacrifício, dava alguma desculpa: “não meu amor, senta na canga que você está precisando tomar um solzinho”.


Ela, então, sentava na canga, caía no buraco como em um ritual Maia de sacrifício humano, uma oferenda viva ao deus da gargalhada. E enquanto ela ficava com o bumbum preso na areia e as perninhas sacodindo pra cima, eu e minha irmã nos divertíamos achando que tínhamos feito a maior das pegadinhas.


Minha mãe sacrificava o seu ridículo para nos proporcionar um bom momento. E o pior? Só depois de adulto que eu, pensando sobre estas memórias, é que fui descobrir e entender que era tudo uma farsa, claro. Seria impossível uma pessoa cair na mesma armadilha repetidas vezes todos os finais de semana do verão.


E da mesma forma, só depois de adulto, depois de ter a minha filha e ter me tornado pai que eu entendi que ser pai ou mãe é sobre fazer sacrifícios. Se você não faz sacrifícios, se a sua vida está um sonho como doce de leite confeitado de açúcar baunilhado, se você não abriu mão de nada depois de ter um filho, pode significar que sua paternidade (ou maternidade) não é como deveria ser. Talvez você esteja delegando muitas de suas funções para outro.


Minha mãe fez muitos sacrifícios por mim, eu sei, inclusive cair em buracos na areia da praia.

(Crônica n°43) 01/09/2020

Diogo Braga Crônicas




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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!

Diogo Braga.



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