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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

SABOR DE ARTE BEM FEITA (Crônica n°15)

Atualizado: 19 de mai. de 2021

Meu pai sempre foi para mim um exemplo, mas ele não era perfeito. E isto significa que ele também me ensinou fazer algumas coisinhas erradas. Ele chamava isto de “fazer arte”.


Fazíamos arte, por exemplo, quando ele pegava eu e minha irmã na quarta-feira depois da aula e nos levava para jantar na sorveteria ou em alguma lojinha de doces sem a minha mãe saber, afinal, doce lá em casa só podia no final de semana.


Eu me lembro muito bem quando tinha festa de aniversário lá em casa. Os doces não eram estes industrializados e embalados em tubetes e caixas de acrílico como nas festas infantis de hoje. Fazer uma festa no início dos anos 90 envolvia todo um esforço coletivo. A família era convocada e uma multidão de gente passava dias assando, batendo, enrolando e dando vida às maiores maravilhas em tons de caramelo e chocolate.


Um dia antes da festa o mutirão se intensificava e a casa era dominada por um perfume de açúcar. Os sentidos das crianças ficavam aguçados, claro, doidos para comer uns docinhos. Mas lá em casa não podia, só na hora da festa. “Não pega! Vai desarrumar!”. Dizia a minha mãe. Os doces eram organizados em bandejas de metal em padrões tamanho e cores como num arco-íris de sabores.


Tínhamos que nos contentar em lamber as sobras das colheres e pás da batedeira que eram utilizadas no preparo daquele banquete de doces. Mas não adiantava, sempre tentávamos roubar um ou outro, o que levou minha mãe a tomar a drástica decisão de trancar todos os doces um dia inteiro no quarto da minha irmã. A medida que uma bandeja era preparada, alguém levava para o quarto e trancafiava lá. O que gerou uma resposta à altura.


Meu pai, do time das crianças e doido pra comer um docinho também, assim que podia nos chamava pra “fazer uma arte”. O quarto da minha irmã, a prisão dos doces, tinha uma janela que dava pra varanda. Normalmente minha mãe trancava ela, mas meu pai descobriu que forçando um pouquinho ela acabava abrindo por fora.


E nós íamos lá, abríamos a janela em silêncio e subíamos no para peito com a ajuda do meu pai. Eu me sentia um criminoso em uma missão secreta. Pulava pra dentro do quarto e na ponta dos pés pegava dois docinhos preferidos de cada um. O brigadeiro da minha irmã, cajuzinho do meu pai e o meu bolinho de abacaxi caramelado.


Era uma forma que o meu pai tinha de nos ensinar a beleza da rotina quebrada, da relativização do certo e errado. E aqueles docinhos tinham um sabor muito mais delicioso que os que eu comia depois na festa. Aqueles docinhos tinham o sabor de aventura, tinham o sabor delicioso de uma arte bem feita.

31/07/2019 (Crônica n°15)

Diogo Braga Crônicas

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