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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

PRIMEIRA PALAVRA (Crônica n° 02)

Atualizado: 19 de mai. de 2021

Todo pai anseia pra escutar seu filho falar a primeira palavra. Quando o filho é bebê não há muitas “recompensas”, a criança ainda não interage muito, então é natural que seja uma espera ansiosa que o filho comece a falar.


Quando a minha filha começou a vocalizar, balbuciar palavras desconexas e sem sentido, eu virei um papagaio. Chegava em casa repetindo incessantemente: papai, papai, papai, papai, papai!


Eu queria que a primeira palavra que ela falasse fosse papai! Imagina qual seria a minha felicidade! Logo eu fui cobrado pela minha esposa: “deixa de ser chato e egoísta, você tem que ensinar a ela falar mamãe também”!


E, então, imaginando como ela ficaria feliz se nossa filha falasse mamãe primeiro, eu comecei a intercalar, apontava pra ela e falava mamãe, apontava pra mim e falava papai.


Ao mesmo tempo eu temia os percalços da vida, a primeira palavra da minha sobrinha tinha sido lâmpada, imagine o quão frustrado eu me sentiria se a primeira palavra da minha filha fosse um objeto aleatório assim?


Quando pensava nisto o papagaio aqui se intensificava: papai, mamãe, papai, mamãe, papai, mamãe! Confesso que por muitas vezes que a mãe não estava por perto eu ficava só no papai... papai, papai, papai!


Até que um dia ela olhou pra Amy, nossa cadelinha, e falou: AUAU!


E então ela que virou o papagaio. Era auau pra cá, auau pla lá, pra todo o ladoooo! Ela até aprendeu outras palavras depois, mas por muito tempo 90% do seu vocabulário se resumia a auau e eu não me importei em nenhum momento por ela não ter falado papai primeiro, não tive nenhum sentimento de frustração, pelo contrário, curti e achei o máximo esta fase.


A gente saía na rua e ela ficava apontando todo cachorro que via, “auau”, independente se era cachorro de madame ou aquele vira-latas purinho da rua. Ela queria fazer carinho em todos, sem distinção.


Eventualmente ela falou papai, mas os ensinamentos que a vida nos proporciona nem sempre vêm na satisfação das nossas expectativas. Ela nos lembrou que a diferença não está nas aparências, que au-au é au-au, vira-latas ou não. E quantas vezes nós já julgamos alguém pela aparência?


O au-au dela representava o respeito e o amor dela com os animais e, principalmente, a amizade que ela sempre teve com a cadelinha que é nossa companheira de casa.


Acredite: essa cachorra é uma santa e vai pro céu de jatinho!


E o deleite não foi pra mim a satisfação de quando ela falou papai pela primeira vez, mas foi como ela falou sua primeira palavrinha. A beleza do momento foi e é o trajeto, a incerteza e o resultado inesperado.


E o que temos que fazer é isto, diminuir nossas expectativas com o ponto de chegada pra poder aproveitar verdadeiramente cada momento do percurso, pensar e refletir sobre o durante, porque ser papai é aprender a cada instante.


Com esta mentalidade eu sei que eu poderia enxergar beleza qualquer que fosse a primeira palavrinha falada pela minha filha, fosse papai ou lâmpada.

19/09/2019 (Crônica n° 02)

Diogo Braga Crônicas



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