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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

PIRATA NO AEROPORTO (Crônica n° 12)

Atualizado: 19 de mai. de 2021

A família toda estava sentada nas cadeiras do aeroporto esperando. Ao meu lado estavam minha esposa grávida e meu cunhado. Juntos observávamos Alice, minha sobrinha que na época tinha três anos e que estava brincando com mais duas outras crianças que ela tinha acabado de conhecer lá naquele hall de espera. Estavam brincando de “faz de conta”, pulavam, cantavam, corriam. Sei lá.


E de repente, aparentemente sem motivo nenhum, ela correu para o pai dela e abraçou suas pernas escondendo o rosto de medo. Eu estava do lado deles e vi que ela estava aterrorizada. Eu me inclinei e perguntei o que tinha acontecido e ela só conseguiu falar: “Pirata! Pirata!”


A princípio nós não entendemos nada, até que ela desenterrou a cabeça das pernas do pai, virou o rosto e encarou com olhos aterrorizados um homem que tinha acabado de passar e tinha sentado perto da onde ela e seus recém-conhecidos amiguinhos estavam brincando.


O homem era um rapaz parrudo com alargadores e brincos bem grandes nas orelhas e que andava se apoiando em uma muleta. Aí a gente entendeu e deu muita risada, claro. Falamos com ela que aquele homem não era um pirata e que ele usava aquilo (a muleta) para andar, porque a perna dele estava “dodói”.


Depois disso, encorajamos ela a vencer aquele medo. Falamos para ela ir lá e falar com o tal “pirata”. Falamos para ela mandar um beijo para ele. Não teve jeito. Ela não quis, mas a vontade de voltar para os amiguinhos foi maior e acabou vencendo o medo para se juntar de novo às brincadeiras de “faz de conta”.


Eu fiquei imaginando o que tinha passando na cabecinha dela. Ela deve ter visto uma figura completa de um pirata, o arquétipo inteiro. Devia ter visto um cara de perna de pau e talvez até com um papagaio no ombro. E eu me peguei pensando como é engraçada e interessante a espontaneidade de uma criança.


Aquela viagem foi toda assim, recheada das pérolas que a minha sobrinha de três anos soltava. Mas lá naquela cadeira do aeroporto e de mãos dadas com a minha esposa grávida eu sabia que estava presenciando somente uma fração do todo. Uma fração de tudo de bom que a convivência com uma criança pode proporcionar e esta epifania só me fez ficar mais ansioso para o momento em que eu iria me tornar pai.


Eu fiquei ansioso antecipando as risadas que eu iria dar das bobeiras ditas pela minha filha, ansioso pelas bobeiras que eu iria dizer para lhe arrancar sorrisos. Mas, agora que ela já está com seus 2 aninhos, eu quero acima de tudo ensiná-la a ter coragem pra enfrentar os seus medos.


Eu quero que ela saiba que por vezes temos que pensar além do “faz de contas” para poder enxergar as coisas como elas realmente são (seja pro bem ou mal). Quero que saiba que nem sempre tudo que parece é e que ela não deve julgar as pessoas pela aparência. Quero a ensinar que às vezes alguém pode parecer um pirata malvadão, mas que ele pode ser só uma pessoa usando uma muleta e esperando o avião.

09/10/2019 (Crônica n° 12)

Diogo Braga Crônicas


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