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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

PICOLÉ (Crônica n°55)

Atualizado: 2 de ago. de 2021

Eu era criancinha, lá pelos meus 5 aninhos, eu, meu, pai, mãe e irmã passeávamos no parquinho em Niterói e eu ostentava um belo picolé de limão que parecia grande demais para os meus dedinhos.


Me lembro que meu pai filmava o passeio com uma câmera panasconic gigante daquelas que você tinha que carregar por ciam do ombro e eu corrida para um lado e pro outro, brincando e chutando a terra do chão fazendo brotar enormes nuvens de poeira naquele dia ensolarado e seco.


O picolé da minha mão atraía todas as partículas das nuvens de poeira como se fosse um imã, salpicando de sujeira o picolé de limão como se fosse granulado. Parecia um dia perfeito, eu lambia meu picolé com vontade, até que... ele caiu no chão! Eu abri o berreiro na hora, peguei o meu picolé do chão incrédulo e analisando pra ver se tinha algum lugar que eu poderia botar a minha língua sem comer terra.


Esta é a primeira lembrança de choro que eu tenho, mas o que mais me marcou é que quando eu me esbugalhava em choro o meu pai se manteve inerte atrás daquela câmera enorme, chacoalhando de rir enquanto se esforçava dando zoom na minha cara pra tentar capturar todas as expressões do meu rosto. Era como um cinegrafista da national geographic filmando o filhote de zebra sendo atacado pelo leão. Inerte! Ele não fazia nada! Eu me lembro que eu fiquei bravo com ele. Aquele picolé era a minha vida! Era TUDO pra mim.


E criança é assim mesmo. O presente é o mais importante de todos os momentos, não há futuro pra planejar e as pequenas coisas do agora são as valiosas. Nunca passou pela minha cabeça que meu pai iria depois comprar outro picolé pra mim (ele comprou). O meu pai rindo da minha cara era ele se deliciando e achando engraçado a minha supervalorização daquele picolé. Assistir a queda do picolé era para ele contemplar aquele abismo entre gerações, o passeio em família e a sua própria paternidade.


Então, outro dia eu estava passeando com a minha filha e ela estava chupando um picolé, até que ele caiu no chão. Ela abriu o berreiro e eu abri o sorriso. Eu ignorei o choro dela, peguei o celular do bolso e comecei a filmar. Pela primeira vez a minha filha chorava por conta da queda de um picolé! Ela podia não saber naquele momento, mas aquele choro e aquele picolé caído no chão de terra significava pra mim, absolutamente, TUDO.

27/11/2020 (Crônica n°55)

Diogo Braga Crônicas


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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!


Diogo Braga.

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