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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

PELO NA ORELHA (Crônica n° 23)

Atualizado: 19 de mai. de 2021

Na cartilagem externa da minha orelha esquerda, volta e meia cresce um pelo longo e solitário.


E eu faço questão de cultivá-lo no intuito que cresça forte e saudável e se torne o fio mais longo e belo do meu corpo. Faço isto por pura implicância contra a minha esposa.


Mas é realmente um local inesperado pra se crescer um pelo, principalmente um tão longo que pode chegar aos seus 10 cm de comprimento. Minha esposa quando percebe que ele está ali de novo já trata de tentar arrancá-lo, mas eu não deixo.


Quem sabe o que ele passou pra conseguir prosperar ali, um local tão inóspito, improvável. “Temos que exaltar e contribuir com os valentes.” Argumento com ela, mas não tem jeito.


Quando chego em casa do trabalho, abro a porta com cuidado, me certifico que ela não está escondida em algum lugar pronta para me dar um bote e arrancar o coitado. Passo dias sem dormir direito, porque é, principalmente quando estou dormindo, que tenho mais medo de perder.


Tenho medo de perder a atenção que me é despendida quando eu tenho este ser tão especial em minha orelha, principalmente quando fala juras de amor ao pé do ouvido. E eu, que não consigo fazer desta forma, implico porque quero ser notado, quero interagir.


Talvez implicar não seja a melhor forma eu sei, pode ser um reflexo de uma educação machista que nos ensina a não expressar nossos sentimentos. Talvez seja o reflexo de uma infantilidade ainda presente em corpo adulto que só quer dizer eu te amo.


Impreterivelmente minha esposa consegue arrancar o pelo da minha orelha se aproveitando de algum momento de distração. Quando ela consegue, aponta o dedo pra minha cara e ri. Eu me deleito com sua alegria.


Não fico arrasado de tristeza porque sei que daqui a algum tempo, um ano ou dois, o pelo crescerá novamente e passaremos pelo mesmo processo.


Não fico triste porque sei que nosso amor é valente, muito embora tenha nascido em local improvável, e eu irei cultivá-lo no intuito que cresça forte e saudável e se torne o fio mais longo e belo de nossas vidas.


27/11/2017 (Crônica n° 23)

Diogo Braga Crônicas

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