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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

PEIXE DE SOBRANCELHAS (Crônica n° 24)

Atualizado: 19 de mai. de 2021

Meu pai sempre gostou de música. Seu pai era um exímio tocador de gaita e ele tentou aprender a tocar, mas era como uma formiguinha querendo cantar como cigarra. Ele sabia disso e falava de si “a arte pulou esta geração”.


Minha mãe sempre gostou dos crochês que sua mãe fazia e ela tentou aprender, mas furava os dedos como bonequinhos de vodu. A arte também pulou esta geração.


E volta e meia um deles tentava se reconectar com este lado humano. Sei que meu pai gostava de poesia e minha mãe de pintura, mas, se por um lado nunca vi um verso escrito pelo meu pai, minha mãe tentou se aventurar no desenho.


Um belo dia ela botou na cabeça que ia começar a pintar e se preparou. Comprou inúmeras bisnagas de tina a óleo, tinta acrílica, aquarela e comprou papéis de todos os tipos. Meu pai a incentivava e, como são do interior e gostam de coisas rústicas, arranjou alguns latões de leite velhos para ela restaurar e pintar cenas bucólicas.


Ela passava finais de semana inteiros na varanda de casa reproduzindo umas imagens de pássaros e beija-flores nos latões de leite, até que só reproduzir imagens passou a não ser suficiente para a sua alma de artista. Então ela um dia se deparou com uma peça enorme de madeira compensada na rua e pensou: “isto dá coisa”.


Fez meu pai carregar aquela madeira pesada pra casa e começou a trabalhar no compensado. Passou um final de semana inteiro atacando com pinceladas aquela madeira velha como se travasse um duelo de espadas com o pior dos inimigos.


Minha mãe não tem formação artística, arte pra ela passa longe das expressões cubistas de Picasso ou abstratas de Kandinsky. Arte pra ela tem que ser figurativa, passarinho, boizinho, cavalinho. Então, vendo ela trabalhar naquela coisa, eu não estava conseguindo entender do que se tratava.


Até que um dia ela entrou em casa e falou com meu pai que estava pronto e que ela queria pregar a madeira na parede. Todo mundo correu pra varanda com curiosidade e fazendo especulações do que poderia ser aquela coisa, mas ninguém acertou. Então, ela apontou pra coisa com o peito cheio de orgulho e falou: “É um peixe”!


Era abstrato, conceitual, sei lá, ERA FEIO! Era muito feio, retorcido, mas todos falaram que estava uma maravilha! “Está uma obra prima mãe!” Falou minha irmã. “Gostei principalmente da sobrancelha!” Complementei. Todo mundo caiu na gargalhada.


Minha mãe tinha desenhado uma sobrancelha em cima do olho do prixe! “Agora sim eu entendi! Vamos pendurar!” Disse o meu pai. Penduramos aquela obra de arte na parede da varanda enquanto fazíamos chacotas homéricas sobre o potencial artístico da minha mãe. “É um talento desperdiçado” concluímos enquanto admirávamos aquela obra única na parede.


E aquele peixe ficou por anos lá como um lembrete. Um lembrete das risadas que demos naquele dia, mas, sobretudo, um lembrete de que nós não enxergamos as coisas da mesma forma. Minha mãe enxergou naquele pedaço de madeira velha a silhueta de um peixe e a possibilidade de transformação de lixo em arte. E ela, de fato, transformou aquela madeira, mas não foi em uma peça arte, a arte pulou esta geração. Coitada da minha mãe, só conseguiu transformar aquele lixo em risadas figuradas em um PEIXE DE SOBRANCELHAS.


23/04/2020 (Crônica n° 24)

Diogo Braga Crônicas


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