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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

PAISAGEM PERFEITA (Crônica n°28)

Atualizado: 17 de abr. de 2021

Quantas estradas um homem tem que andar antes de poder chamá-lo de homem? (How many roads must a man walk down before you call him a man?) Esta música se repetia infinitamente na minha cabeça enquanto eu dirigia por aquela estrada.


Eu estava em viagem pela Califórnia e ia de carro de Los Angeles para Lake Tahoe na highway one. A paisagem da estrada passava rápida pelo para-brisa e era de uma beleza estonteante, do tipo que se fica embasbacado. De um lado o asfalto cinza se misturava na vegetação rasteira de um verde acinzentado.


Do outro o azul escuro do mar tocava o azul claro do céu que se transformava em degrade num escuro novamente. E o céu? Salpicado por nuvens de brigadeiros! Sentada ao meu lado minha namorada, futura esposa e mãe da minha filha roncava de boca aberta emitindo um som que não combinava com toda aquela beleza.


E na minha cabeça tocava “How many roads must a man walk down before you call him a man”? Acordamos cedo e pegamos estrada antes da 5 da manhã pra ver o dia raiar. Eu gosto de fazer isto, ela odeia, mas o dia rende e eu posso ver o mundo acordando enquanto penso sobre quantas estradas um homem tem que andar antes de poder chamá-lo de homem.


Percebi um acostamento em frente ao mar e parei o carro, acordei ela e tomamos um café da manhã que havíamos preparado no dia anterior. Um achocolatado e uns sanduiches de creme cheese. Saímos e sentimos a paisagem, o vento forte, fizemos umas fotos em poses idiotas de turistas, entramos no carro se seguimos.


Mais paisagens bonitas passavam e a quilometragem do carro aumentava. Passados alguns minutos eu já ouvia novamente um barulho ao meu lado que soava desajustado frente a beleza do entorno. Minha companheira já tinha dormido de novo e roncava. Eu não conseguia entender como é que ela conseguia dormir tendo aquela paisagem linda na frente. Em vez de contemplar e apreciar, ela dormia e roncava!


Depois de alguns quilômetros eu a acordei de novo, saímos do carro, descemos em uma pequena praia deserta que era tão linda que parecia de mentira, demos uma volta e entramos no carro de novo. Desta vez minha companheira se manteve um bom tempo acordada e passamos quilômetros conversando, jogando papo fora.


Eu não sabia na época, mas isto passaria a ser um hábito por conta de nossas nossas constantes viagens de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro. Mas não deu outra, depois de um tempo ela começou a me responder com a voz meio arrastada, sonolenta e não demorou para ecoar de novo o seu ronco pelo carro.


Me encontrei novamente com a paisagem deslumbrante que passava rápido pelo meu para-brisa. Eu pensava em como ia ser o meu futuro enquanto na minha cabeça tocava “How many roads must a man walk down before you call him a man”? Tinha uma ideia de que a vida ia passar rápido como aquela paisagem e eu sabia que ia ter que me forçar a fazer algumas paradas pra poder apreciar melhor cada momento, mas sabia com quem eu gostaria de estar.


O dia foi virando noite e a paisagem de vegetação rasteira acinzentada foi se transformando em um verde vivo de pinheiros gigantes. Minha companheira acordou, eu olhei pro lado, ela se aconchegou no meu ombro, me deu um beijo no braço e eu soube que um homem tem que andar o suficiente para saber que a paisagem perfeita é aquela que vem acompanhada com a imperfeição do ronco da mulher amada.

24/08/2020 (Crônica n°28)

Diogo Braga Crônicas


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