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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

O REI DO SEBO (Crônica n° 58)

Atualizado: 3 de nov. de 2021

Minha família tem o costume de negociar tudo, absolutamente tudo. Minha mãe pode estar comprando um chiclete na esquina que ela pede desconto. Eu, portanto, adquiri este hábito. E considerando verdade que quem vende quase sempre coloca o preço inicial da coisa um pouco acima do valor real esperando que aconteça esta negociação, entendo que é um hábito positivo, pois as duas partes estão de antemão preparadas para a barganha. É um costume.


Então, um belo dia estava eu no conglomerado de sebos de edifício Malleta em Belo Horizonte, onde há um andar inteirinho de lojas de prateleiras com livros velhos e amarelados esperando para serem garimpados pelos apaixonados por histórias.


Estava eu garimpando alguns livros de crônicas do Sr. Sabino e me preparando para a barganha por vir. De cócoras, escolhi dois ou três livros nas prateleiras sob o olhar atento do livreiro, levantei eles acima do ombro e perguntei: “quanto custam estes aqui”? O homem, 50 e poucos anos, barba por fazer, sentado em uma cadeira de praia e envolto de livros empilhados do chão até acima da sua cabeça formando uma espécie de trono de papel ao seu redor, finalizou sua tragada no cigarro, deu uma baforada e disse: “15 reais cada”.


Estávamos em um ambiente fechado, então estranhei ele fumando no lugar, mas ele parecia não estar nem ai. Eu tentei iniciar a negociação: “15 reais é muito caro, faz cada um por 10”? Ele me olhavou de cima pra baixo com superioridade, como a realeza fitando a peble e retrucou: “15 reais é pouco pra você, se não quer comprar, vai embora”.


Eu não tive estirpe para debater com aquele rei do sebo. Identifiquei na hora que estava de frente um ser especial e superior. Levantei estalando os joelhos e saí deixando os livros na prateleira onde os encontrei. Fui embora puto e humilhado. Sempre fui ensinado que precisamos estar prontos para negociar, pois estamos quase sempre negociando, seja no trabalho, com amigos, esposa ou filhos. Mas como é certo que é um direito do comprador negociar e pedir desconto, também é direito do vendedor dizer não. Eu só não esperava um não tão incisivo.


Naquele dia o vendedor do sebo me deu uma lição que eu não percebi no primeiro momento. Da mesma forma que a negociação é uma habilidade importante, precisamos saber também que não é preciso negociar sempre. Saber nossos limites é importante para podermos sentir-nos como realeza.

E a verdade é que eu queria bastante os livros, mas por orgulho não os comprei, não queria dar o gostinho da vitória para o rei do sebo. Então, deixei passar alguns dias e voltei lá torcendo para não ser notado e levei os livros, 15 reais cada.

03/01/2021 (Crônica n° 58)

Diogo Braga Crônicas




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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!


Diogo Braga.

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