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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

O MENINO SEM ANJO (Crônica n° 09)

Atualizado: 19 de mai. de 2021

Quando eu era criança, pra lá dos anos de 1999, eu descobri na incipiente internet daquela época que eu poderia saber o nome do meu anjo da guarda! Eu fiquei maravilhado, claro! Agora eu poderia chama-lo pelo seu nome!


Eu sempre conversava com ele, já pensava ter uma certa intimidade, assim como a minha família, que o acionava quando eu ficava doente. Na parede do meu quarto, em cima da minha cama, ele sobrevoava como uma imagem, um querubim, que era como pensávamos que ele fosse.


Então, descobri que o tal site dizia qual o nome e a as características do anjo da guarda assim que você informasse o dia do seu nascimento. Inseri com ansiedade a data no site: 12 de agosto. Resultado: NENHUM.


Eu descobri que não tinha anjo da guarda! Eu fiquei desolado. Fiquei me sentindo mais indefeso que uma pessoa pelada no inverno. Imagine qual foi a minha surpresa e decepção, como criança, descobrir que eu não tinha anjo da guarda! Procurei afago correndo pro meu pai, bradando: “Pai! Eu não tenho anjo da guarda!” Ele tentando me ajudar disse que aquilo era superstição, mas eu fiquei desconfiado.


Eu acabei deixando de falar com o meu anjo. Com o passar do tempo eu esqueci isto tudo e aquele sentimento infantil de insegurança deu lugar a autoconfiança idiota de um adolescente. Me tornei um adulto e entendi que confiança e insegurança se revezam em altos e baixos como numa montanha russa. E em um destes momentos de insegurança eu pensei de novo no meu anjo da guarda. Tentei falar com ele, mas ele não me respondeu. “Talvez me falte a imaginação de uma criança”, concluí.


Entrei na internet novamente, mais de dez anos depois daquela primeira consulta, e, sem muita esperança, pesquisei sobre o anjo da guarda do meu dia de nascimento. Digitei: 12 de agosto. Resultado: uma RESSALVA.


O site ainda dizia que o dia do meu nascimento era um dia sem anjo específico, mas dizia também que as pessoas nascidas neste dia eram “gênios da humanidade”, pessoas que em outras vidas realizaram sacrifícios pelo grupo em que viviam, pessoas especiais e sensíveis que poderiam escolher qualquer anjo para sua proteção e que elas próprias eram como se fossem anjos na terra. Imagine a minha felicidade!


Na mesma hora eu pequei o telefone, liguei pro meu pai e gritei como uma criança: Pai! Pai! Eu tenho anjo da guarda! Eu tenho anjo da guarda! Expliquei pra ele tudo que eu tinha lido, brinquei que sempre soube que eu era um gênio e que ele não podia reclamar dos meus defeitos, porque o site tinha dito que eu era um anjo! Ele rindo me respondeu que tudo aquilo fazia sentido.


Estendemos a conversa e batemos um papo sobre a vida, sobre as angústias da rotina e ele me reconfortou como sempre fazia e como fez naquele dia que eu descobri que não tinha anjo. Meu pai não era nenhum um gênio da humanidade, não nasceu em um dia especial, mas sempre me apoiou e me protegeu em todas as etapas da minha vida. Então, naquele momento eu entendi que sempre tive, que sempre soube o nome e que eu nunca tinha deixado de falar com meu anjo da guarda.

23/11/2018 (Crônica n° 09)

Diogo Braga Crônicas


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