top of page
Buscar
  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

O LADO AÇÚCAR DA FORÇA (Crônica n° 20)

Atualizado: 17 de abr. de 2021

Minha filha recusa sorvete. Que tipo de pessoa não gosta de sorvete? É sério.


Eu estava no shopping com ela, meu primo e seu filhinho, todos sentados em uma mesa na praça de alimentação, um tomando sundae, outro milk-shake e eu com uma casquinha de duas bolas implorando pra minha filha dar uma lambida, mas nada. “Não qué, não qué!” Dizia ela.


E eu incrédulo, implorando a ela, desejando que ela entrasse nesse delicioso mundo do açúcar! Eu me sentia o próprio Darth Vader incitando o Luke a ir pro lado negro da força. “Não qué, quero manga!”


Mas, a verdade é que eu e minha esposa não demos nada com açúcar industrializado pra nossa filha até seus dois anos e agora com seus dois aninhos e pouco, de vez em quando, deixamos ela experimentar alguma coisa, principalmente quando ela está na companhia de outras crianças que já têm o hábito de comer este tipo de doce. Mas ela quase sempre recusa, não gosta.


Outro dia tentamos dar a ela um chocolate, um bis. “Vem pro lado do açúcar da força”. Imaginei. E eu achei que ela ia ficar maravilhada, que ela ia sair pulando de felicidade, afinal quem é que não gosta de chocolate? Ela cuspiu assim que sentiu o gosto na boca. “Será que minha filha vai ser uma adulta de paladar insípido, sem ser capaz de apreciar o maravilhoso gosto de açúcar nos lábios?” Pensei.


Mas eu, sinceramente, acredito que não. Tenho fé na força de persuasão do chocolate e sei que (muito provavelmente) a vida se encarregará de fazê-la apreciar este tipo de iguarias. Sendo assim, se acho que a vida vai levar ela naturalmente pro lado açúcar da força, eu sinto que estou fazendo certo na sua criação, afinal, penso que cabe a nós, pai e mãe, contrabalancear essa balança deixando ela o menos exposta possível a este tipo de alimento. Afinal, há inúmeros especialistas que apontam pro risco de desenvolvimento de problemas de saúdes decorrentes do exagero no consumo de açúcar por crianças.


E essa restrição não significa um exagero na criação dos filhos, é um cuidado. Não significa que a criança não pode comer de vez em quando, como disse, eu já tentei oferecer pra minha filha e não significa também que uma criança que comeu chocolate industrializado na sua infância irá se tornar automaticamente um adulto obeso, eu mesmo me deparei outro dia com uma foto minha de 10 meses de idade me acabando em um chocolate.


Mas os tempos mudam e as cabeças mudam também. Se hoje somos a geração dos pais com culpa, como diz Piangers, que não deixam seus filhos comer muitos doces, que os obrigam a andar amarrados nos cintos de segurança e cadeirinhas dos carros, que controlam o tempo de exposição dos filhos na frente de televisão, telefone, tablet, é porque somos a geração dos pais que questionam. Somos rebeldes.


Não é porque eu cresci bem mesmo tendo acesso à chocolate e doces cedo, antes do primeiro ano de idade, que minha filha precisa ter acesso também. Comer ou não comer doce cedo é uma questão de hábito, e como minha filha não possui este hábito ela não gosta, recusa, prefere fruta.


Este é tipo de pessoa que recusa sorvete e chocolate: a pessoa que não tem o hábito. E eu penso que o bom hábito deve ser estimulado e o mau hábito descontinuado. Quero sim é que ela seja uma rebelde e se torne uma adulta com o hábito de questionar as coisas, quero que ela faça exercícios, que seja adepta ao lado saudável da força, mas quero que saiba que também não há nada de mau em, de vez em quando, apreciar o maravilhoso gosto de açúcar nos lábios.


18/11/2019 (Crônica n° 20)

Diogo Braga Crônicas


Crônicas em podcast, Spotify (Braga Crônicas), Instagram (@DiogoBragaCronicas) e Youtube (Braga Crônicas). Medium (@bragacronicas).



-> E se você se identificou ou gosta das histórias que eu conto, comenta, salva, compartilha, se inscreve, ativa as notificações, mostra pro coleguinha, faz tudo e me ajuda a espalhar a palavra! E se você quer compartilhar uma história sua comigo, me manda um e-mail para bragacronicas@gmail.com ou me envia um áudio pelo direct do instagram que é @diogobragacronicas. No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!



0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

TODO GATO É MALVADO (Crônica n° 82)

“Todo gato é malvado!” Tento incutir na cabeça da minha filha de 4 anos. “Não é não, gato é bonzinho” ela responde me dando língua. É inocente quem pensa que os pais têm o poder absoluto de moldar a

TRADIÇÃO DE DIOGOS (Crônica n° 81)

Na minha família há uma tradição de Diogos. No caso, o nome mesmo. E meu pai, de nome Diogo, em um momento de curiosidade, contou, fez uns telefonemas para os familiares, primos próximos e distantes e

UVAS DESCOBRIDORAS (Crônica n° 80)

Comendo uvas, estava eu jogado e embriagado de sono na mesa do café. O pote de sorvete à minha frente, sem sorvete, apenas um cacho onde em cada gravetinho morava uma uva verde e eu, aleatoriamente, p

Comments


bottom of page