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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

O BAR DA FRENTE (Crônica n°36)

Atualizado: 17 de abr. de 2021

Cronista que se preze tem que escrever homenagem ao bar de esquina. Afinal, a experiência da boemia do bar é fonte inigualável de inspiração, posto que as cadeiras amontoadas na calçada cumprem com maestria a função de arquibancada para o acaso.


Sentado na primeira fileira (e fumando um cigarrinho de queijo) eu já presenciei muitas cenas do teatro da vida, já vi o mais cerrado dos marmanjos se abrindo em prantos, brigas de alçar voo em mesas de plástico e traições dignas de um texto de Nelson Rodrigues.


Mas como cronista nenhum discorreu sobre o bar da frente, venho por este apresentar texto inédito exaltando este bar que é sempre provido de uma localização privilegiada. Ao contrário do bar da esquina, o bar da frente é aquele que se encontra no caminho a ser percorrido, sempre em frente a algum lugar relevante para aquele grupo de bebuns específico, é mais ponto de passagem do que de encontro.


Destaco, dentre as diversas espécies destes, o bar em frente à faculdade que foi o que mais habitei, religiosamente estava eu lá todos os dias como uma beata que não perde missa, ao menos nos primeiros períodos letivos. O bar da frente é uma característica cultural do estudante brasileiro, ambiente formador de caráter pela sociabilidade e lugar de afogar mágoas e frustrações.


Alguns bares da frente são tão impressionantes que o amontoado de gente invade a rua e acalenta o trânsito de carros irritados, como no bar na frente da UFMG. Outros bares da frente são singelos, nem tão disputados, mas sempre convidativos com suas mesas de plástico ou de ferro enferrujado. O bar de frente é o posto de gourmet, mas é aquele bar que você conhece o dono e se sente em casa.


Quando eu tirava notas baixas corria para o bar da frente e quando reprovei em uma matéria eu e um amigo fizemos uma baratona (bar + maratona) e lavamos a frustração no álcool das 10 horas da manhã até o dono nos expulsar de noite. Como era em frente a faculdade cada vez que algum conhecido descia do ônibus para ir para aula era automaticamente atraído para nossa mesa.


O bar da frente tem este tipo de atração, afinal, ele está ali sempre disponível, no caminho, uma tentação. Neste dia me senti o Jô Soares em um talk show da vida real, com convidados diversos sentando ao meu lado e debatendo sobre o mundo. Minha mãe sempre dizia que amigo de bar não presta, ela estava errada, minhas melhores amizades foram forjadas no bar da frente.


Tenho certeza que o bar da frente fez parte da jornada de muita gente apreciadora do teatro da vida. Mas tenho que confessar que o bar da frente que eu mais frequentei ficava também em uma esquina. Queria mesmo é discorrer homenagem justa, mas nem tão inédita (confesso), a este tipo de bar tão ameaçado em tempos de gourmetização e pandemia.


26/08/2020 (Crônica n°36)

Diogo Braga Crônicas



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