top of page
Buscar
  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

NA PONTE AÉREA DO JATINHO

Minha filha nasceu por volta de um ano e meio depois de o meu pai ter ido. Para mim sempre foi uma tristeza gigante pensar que ela nunca teve a oportunidade de conhecer o grande homem que ele foi. Ele era o suporte da família.


Eu minha irmã e minha mãe o explorávamos indefinidamente, tanto sentimentalmente, quanto para tarefas do dia a dia e é, por isto, que ele sempre dizia: "quando eu bater as botas vou de jatinho para o céu!".


Meu pai era um senhor barrigudinho trabalhador, de responsabilidades, ostentava um belo bigode, e fazia tudo para todos, principalmente quando aposentou, porque todo mundo, achando que ele tinha mais tempo livre, o enchia de afazeres.


Foi professor a vida toda e depois, em vez de inspirar outras vidas, praticamente trabalhava de despachante para sua esposa e dois filhos. “Paga aquela conta pra mim pai”, “leva meu carro no mecânico amor”, “faz isto, faz aquilo” e, assim, ele passou o resto de seus dias resolvendo problemas dos outros, enquanto gostaria de estar inspirando mais vidas de maneiras completamente desconhecidas e inexploradas.


Quando estava com todas as tarefas concluídas ganhava de retribuição mais tarefas. Por vezes deixava de fazer uma ou outra e ganhava sermões como: "Tira a cabeça das nuvens! Vai fazer alguma coisa!" E ele só respondia rindo: "Quando eu bater as botas vou de jatinho para o céu!".


Como eu já disse, eventualmente ele faleceu e eu, minha mãe e minha irmã, sem o suporte que tivemos nossas vidas inteiras, tivemos que arcar com todas as nossas tarefas e mais as tarefas originalmente dele. E qualquer adulto que já perdeu um ente querido sabe o trabalho que é adaptar a vida em meio às burocracias e impostos que se misturam ao luto da perda.


Todos nós sentimos o peso das tarefas e cobranças e soubemos de imediato que ele devia mesmo ter ido de jatinho para o céu. E eu não falo só do peso das tarefas mundanas do dia a dia, a árdua função de suporte emocional passou a ter que ser desempenhada por nós mesmos.


Mas a vida caminha do jeito que dá e se renova. Menos de um ano após o falecimento do meu pai a minha sobrinha Alice, de dois anos e meio e que conheceu ele quando era bem pequena, disse que tinha sonhado com o vovô e que ele estava em um avião trazendo outras duas Alices para nós.


Dias depois minha esposa fez um teste de gravidez e descobriu que estava grávida e eu fiquei receoso, a gravidez (embora muito desejada) não tinha sigo planejada, imagina se tivesse grávida de gêmeos!


Alguns dias depois minha irmã descobriu que também estava grávida! Ufa... Eu fiquei aliviado! Alice tinha sonhado com duas outras Alices de barrigas diferentes. Então, eu nunca pude largar do meu coração a certeza de que aquele avião que ela tinha sonhado era, na verdade, um jatinho e entendi que tinha que ter sido um jatinho, para ele ir e voltar rápido trazendo nossos dois anjinhos, Bia e Lílian, minha filha e sobrinha, nossos novos suportes.


E eu me conforto por saber que naquela ponte aérea entre o céu e a terra, a minha filha, Lílian, mesmo que por um breve momento, teve a oportunidade de conhecer o grande homem que eu tenho a honra de chamar de pai.


05/04/2019 (Crônica n° 22)

Diogo Braga Crônicas



Crônicas em podcast, Spotify (Braga Crônicas), Instagram (@DiogoBragaCronicas) e Youtube (Braga Crônicas). Medium (@bragacronicas).



-> E se você se identificou ou gosta das histórias que eu conto, comenta, salva, compartilha, se inscreve, ativa as notificações, mostra pro coleguinha, faz tudo e me ajuda a espalhar a palavra! E se você quer compartilhar uma história sua comigo, me manda um e-mail para bragacronicas@gmail.com ou me envia um áudio pelo direct do instagram que é @diogobragacronicas. No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!

0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

TODO GATO É MALVADO (Crônica n° 82)

“Todo gato é malvado!” Tento incutir na cabeça da minha filha de 4 anos. “Não é não, gato é bonzinho” ela responde me dando língua. É inocente quem pensa que os pais têm o poder absoluto de moldar a

TRADIÇÃO DE DIOGOS (Crônica n° 81)

Na minha família há uma tradição de Diogos. No caso, o nome mesmo. E meu pai, de nome Diogo, em um momento de curiosidade, contou, fez uns telefonemas para os familiares, primos próximos e distantes e

UVAS DESCOBRIDORAS (Crônica n° 80)

Comendo uvas, estava eu jogado e embriagado de sono na mesa do café. O pote de sorvete à minha frente, sem sorvete, apenas um cacho onde em cada gravetinho morava uma uva verde e eu, aleatoriamente, p

Comments


bottom of page