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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

Matador de gatos (Crônica n° 66)

Atualizado: 3 de nov. de 2021

Meu pai sempre foi de fazer brincadeirinhas desajustadas, antiquadas e fora de hora, assim como o tiozinho clássico do “é pavê ou pá cumê”.


Mas um dia o tiro saiu pela culatra e uma destas brincadeirinhas não caiu bem.


Estávamos eu, meu pai, mãe e irmã viajando pelas estradas de Portugal. Viajávamos sem parada definida, sem agendamento em hotel, pousada ou qualquer coisa. Era uma viagem que já não se faz hoje em dia, sem a segurança do GPS no painel, era uma viagem com o mapa em riste carcomido de tanto ser dobrado e redobrado. Viajamos de Lisboa ao norte com destino final em Santigo de Compostela, porém, estas condições cobraram o preço. A noite caiu junto do cansaço e nos obrigou a parar o carro em um pequeno povoado fora do eixo turístico, Póvoa do Varzim, e procurar um lugar para dormir.


Corremos de hotel em hotel, pousada em pousada e demos de cara com as portas fechadas. Estava ocorrendo uma convenção de não sei o quê que deixou todos os lugares lotados.

Imagino a tensão da minha mãe com dois filhos no carro sem lugar pra dormir em um país desconhecido. Meu pai estava tranquilo “qualquer coisa dormimos amontoados no carro” dizia ele sorrindo com a certeza de quem estava vivendo uma aventura.


Até que achamos uma pensão com quarto vago. Era uma casa velha com um pátio lateral grande usado como garagem. Paramos o carro e fomos muito bem recebidos por uma gentil senhora rodeada por gatos. Aquela quantidade de gatos nos deixou surpresos. A velhinha tinha gatos no colo, nos ombros, aos pés, eram gatos demais para uma pessoa normal, mas era a nossa única opção, então, nos estabelecemos. Quando estava tudo acertado meu pai não se aguentou e fez o comentário que todos queriam fazer e não tinham coragem “a senhora gosta muito mesmo de gatos não é” disse ele meio sorrindinho. O problema foi que ele não parou por ai, quis implicar com a senhorazinha dizendo algo do tipo “não gosto muito de gatos, cachorros são bem melhores”. Ela retribuiu com um sorriso amarelo e fomos dormir.


No dia seguinte de manhã cedinho, voltando com as malas para o carro, nos deparamos com a cena de um crime. O corpo imóvel de um gato no chão de cimento da garagem. Parecia que o bicho tinha levado alguma paulada na cabeça. Meu pai correu pra dentro da casa e deu a notícia sem perceber o efeito de seu comentário infeliz do dia anterior.


Tinha dito que não gostava de gatos e poucas horas depois daria a notícia de um gato morto.


A senhora não recebeu bem a notícia e, antes uma velhinha de fala doce, passou a nos tratar com a rispidez de quem havia concluído que o meu pai era o assassino e, praticamente, nos enxotou da casa.


Como nos sentíamos como pessoas não gratas, roubamos uns brioches e uns queijos da mesa do café da manhã da qual tínhamos direito e fomos embora o mais rápido possível.


Éramos inocentes, mas não havia defesa possível. Tudo por conta de uma brincadeirinha desajustada, fora de hora, uma implicância desnecessária.


Então, até o fim da viagem passei a implicar com o meu pai chamando-o com seu título adquirido: “o matador de gatos”. Ele não gostava, mas eu dizia isto sorrindo com a certeza de quem estava vivendo uma aventura.

10/05/2021 (Crônica n° 66)

Diogo Braga Crônicas




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Diogo Braga.

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