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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

LUTA DE ESPADINHAS

Minha filha tem passado uns dias doentinha e ela está alternando momentos de introspecção (e muita tosse) com momentos de vitalidade.


Ontem cheguei em casa e ela estava amuadinha. Sentei perto dela no sofá e ficamos lá uns longos minutos. “Coff coff” pra cá, “coff coff” pra lá e, de repente, ela levanta, caminha lentamente pro amontoado de brinquedos que fica na última prateleira da estante, pega uma espada de plástico e aponta pra mim.


Eu fico assustado, claro, minha honra de espadachim estava sendo desafiada. Ela corre desajeitadamente e me desfere uma estocada. Por um fio de cabelo não sou atingido. Corro em direção ao corredor enquanto estico a mão e pego outra espada pra me defender. Ela me persegue, me alcança e ficamos um tempo nos encarando. Eu com a minha espadinha de plástico vermelho EM RISTE, enquanto ela balançava a sua espadinha de plástico verde na minha direção como se dissesse “vou te pegar”.


E eu sabia que aquilo não era verdade, mas eu queria que aquele momento durasse pra sempre, então, dei a ela um bom combate.


Em um movimento súbito eu encostei a ponta da minha espada gentilmente naquela barriguinha proeminente e fiz jorrar gargalhadas pelo chão. Ela correu na minha direção brandindo aquele plástico verde que batendo no meu plástico vermelho fazendo um barulho estrondoso.


“Vai machucar!” Gritou a mãe da sala.


Então minha filha me encurralou no fim do corredor. Seus olhos sorriam com a certeza de que me pegaria. Olhei pro o meu lado esquerdo, dei um safanão na porta e escapei subindo na cama do quarto. Ela correu atrás, mas como a cama é alta e ela não sabe subir sozinha, ficou na beira nas pontinhas dos pés brandindo a espada tentando acertar meu calcanhar.


Ficamos um tempo batendo espadas e eu, me aproveitando do terreno alto favorável, acertei com a espada o seu bumbum. Ela caiu no chão esparramando mais gargalhadas e eu aproveitei o momento pra correr de novo pra sala. Mas lá, fui atacado pelo terrível cão selvagem, lulu da pomerânia, que pulou e me derrubou de joelhos querendo me escalpelar com suas lambidas mortais e eu, me distraí.


Então, minha filha surgiu correndo da porta em minha direção com suas perninhas desengonçadas e aproveitou o momento. Sem qualquer traço de misericórdia na feição do seu rosto ela desferiu uma estocada mortal que se alojou entre o meu braço e meu corpo, bem abaixo da axila.


Juntei todas as forças do meu corpo moribundo e fiz uma última cosquinha com minhas mãos na sua cintura. Mais algumas gargalhadas. Fiz um teatro, derrotado, no chão da sala de taco. Ela rindo muito satisfeita, mas ainda sim implacável (ou talvez sadismo), ainda desferiu algumas espadadas no meu corpo imóvel.


Então eu escuto: “Coff coff coff”.


Ela voltou a tossir e eu me lembrei que a batalha do dia a dia é outra. E pensei que, se eu pudesse, faria com que todas estas outras batalhas fossem vencidas com mais facilidade que aquela luta de espadinhas de plástico.


17/05/2020 (Crônica n° 18)

Diogo Braga Crônicas



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