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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

LANTERNAS DO TEMPO (Crônica n°19)

Atualizado: 19 de mai. de 2021


Você sabe como é que aquelas as lanternas japonesas de pedra que são colocadas em jardins são feitas? As que são fabricadas manualmente são esculpidas cuidadosamente através de delicadas marretadas.


E se já não fosse impressionante que objetos tão singelos sejam fabricados com marretadas, mais impressionante ainda é o relato que eu li uma vez de um destes artesãos. Eu li que ele encarava aquelas lanternas que ele fazia não como simples objetos, mas como obras de arte do tempo.


Ele explicava que pegava peças grandes e brutas de pedras, as martelava até uma forma reconhecível, mas que o trabalho dele acabava ali sem estar finalizado. Então ele pegava estas grandes peças de pedra e as submergia no fundo do leito do rio mais próximo e aguardava aproximadamente 10 anos.


Depois de uma década ele retirava, com grande dificuldade, os pedregulhos debaixo das águas correntes e as empilhava. As águas do rio arredondavam os cantos pontiagudos deixados pelas marteladas nas pedras e dizia que, somente naquele momento, aquele objeto poderia ser chamado de lanterna.


E é assim que funcionam as memórias familiares.


Hoje estamos tão imersos em uma sociedade tecnológica que é fácil tirar uma foto ou fazer um vídeo a qualquer hora: basta sacar o celular do bolso e apontar. E essa banalização do registro imagético é o que o faz ele aparentemente perder a importância, é o reflexo da sensação de serem tantos e de estarem sempre ao alcance de nossas mãos.


Mas este é um sentimento perigoso, porque ao invés de estarem em nossa memória afetiva, estão em memórias-rams que podem a qualquer momento PUFF: erro fatal, seu celular precisa de um backup de fábrica. E estas memórias são o tesouro mais valioso de uma família. Não só as imagéticas, mas também as escritas, as faladas, os casos e causos contados a beira da cama ou às altas horas da madrugada.


Arrume uma forma de registrar isto tudo também. Anote quando foi a primeira vez que seu filho acompanhou com os olhos, segurou um brinquedinho. Grave suas primeiras palavras, anote seus dizeres engraçadinhos, suas palavras faladas de forma errada.


Reflita sobre tudo isto, escreva um texto, faça uma poesia. Não se esqueça de revelar, imprimir umas fotos, atualizar a mídia necessária para conservar os vídeos, bote tudo em uma caixa e esconda no fundo do armário mais bagunçado de sua casa.


Espere uma década e abra esta caixa com o seu filho. Tal como uma lanterna estes registros entregarão luz. Você lembrará de detalhes muito antes esquecidos, ficará alegre ou sentirá saudades, mas com certeza se emocionará. Depois de 10 anos as lembranças crescerão exponencialmente em importância e você as encarará como obras de arte do tempo.


16/11/2017 (Crônica n°19)

Diogo Braga Crônicas


Crônicas em podcast, Spotify (Braga Crônicas), Instagram (@DiogoBragaCronicas) e Youtube (Braga Crônicas). Medium (@bragacronicas).



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