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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

JOANETE QUE PREVÊ O TEMPO (Crônica n°37)

Atualizado: 17 de abr. de 2021

Eu sempre tive joanete, desde criança. É um traço genético que corre na família, mas eu sempre encarei como uma maldição. De tempos em tempos o negócio começa a doer sem aviso prévio. Se eu jogar bola durante 20 minutinhos o bichão já fica latejando. Não posso usar sapato muito apertado e de tempos em tempos, no trabalho, tenho que tirar o tênis e ficar usando como se fosse uma pantufa, pisando no calcanhar pra aliviar a dor. É sério. Doi! Mas ele PREVÊ O TEMPO!


Minha avó que me contou esse segredo. Eu era novinho e ela já beirava seus 80 anos, estávamos vendo TV quando ela soltou: “iiii... vai chover muito”! E eu não entendi o porquê daquela afirmação categórica. Não havia estourado nenhum trovão, não tinha começado a ventar, então perguntei como é que ela tinha tanta certeza que ia chover. E ela me explicou que o joanete dela estava latejando de uma forma que ela sabia que era o tempo virando. Na hora eu ri, mas depois de umas cinco horas eu corri pra ela gritando: “Tá chovendo! É verdade”!


Então ela me explicou como a coisa funcionava. Se latejar desse jeito é porque vai chover muito e rápido, se for dor de pontada o tempo vai virar desse jeito, isso e aquilo. Então, a partir daí eu comecei a encarar o meu joanete de forma diferente, não mais uma maldição. Ele já não era mais um apêndice escroto no meu corpo que só serve pra me torturar. Ele era um instrumento mágico, como uma varinha, só que acoplado no meu corpo. E durante o decorrer da minha vida ele serviu como alvo de chacotas para os meus amigos que tinham os pés perfeitamente “normais”, mas isto nunca me afetou, pois eu sempre soube do seu potencial.


Nunca ninguém acreditou quando eu falei (poucas vezes) que meu joanete previa o tempo. Quando estava na rua e sentia ele me dizendo que iria chover, simplesmente me retirava. Já me safei de grandes alagamentos por conta dele, então o agradeço. Eu sei que é difícil acreditar. Pois então te conto que os melhores laboratórios meteorológicos possuem, no mínimo, o contato de 10 velhinhas de 80 anos com joanetes pra confirmar as imprecisas previsões do tempo medidas por aparatos tecnológicos. Pode mandar um e-mail para o Climatempo perguntando. Não há nada mais seguro que a previsão do tempo do joanete.


Mas este é um segredo bem escondido. Fico fantasiando com o dia que descobrirei que existe uma sociedade secreta de pessoas com joanetes que se ajudam na tentativa de desenvolver e desvendar os verdadeiros poderes desta deformidade óssea. Mas é só um sonho. Todo mundo é igual e incapaz de acreditar. Eu passei 20 anos da minha vida sem encontrar uma só pessoa que acreditasse no dom do joanete. Até que um dia no trabalho o meu começou a latejar de uma forma que eu sabia que era o tempo virando, então falei: “iiii... vai chover muito”!


Me perguntaram como é que eu tinha tanta certeza e eu falei que era o joanete. A maioria riu, um outro gargalhou e eu falei pra ele esperar. Uma amiga ficou calada e falou séria: “é verdade, minha avó tinha isto”. Fiquei emocionado, finalmente tinha encontrado uma pessoa crédula, consciente de que a vida é feita de histórias curvas e deliciosas. Depois de umas cinco horas caiu um temporal e eu recebi uma mensagem do colega que tinha gargalhado: “Tá chovendo! É verdade”!

15/09/2020 (Crônica n°37)

Diogo Braga Crônicas




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