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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

GUERRA DO PANO DE PRATO (Crônica n° 65)

Atualizado: 3 de nov. de 2021

Minha sogra é bolsonarista. Minha esposa não.


Minha sogra é uma das pessoas mais bondosas que eu conheço. (Eu sei que para muitos pode parecer um paradoxo, mas é verdade, as vezes a vida nos embaralha a cabeça.)


Minha sogra veio ficar aqui em casa duas semanas para ajudar a mim e a minha esposa nos dias difíceis de reta final de gravidez (e obra) e repousado na tampa de nosso fogão jazia um pano de prato engraçadinho, com florzinha, cavalinho branco e com os dizeres “Se veio falar mal do Bolsonaro, veio ao lugar certo”.


Desde então eu vivo em uma guerra FRIA, silenciosa, motivada por um pano de prato. Pode parecer ridículo. Mas é sério.


Eu passo na cozinha e o pano de prato está virado, de costas, tapando os dizeres e sendo impedido de mostrar orgulhosamente sua mensagem.


Quando minha esposa vê, desvira, mas passado um tempo já está virado novamente.


Elas estão guerreando em silêncio. Não querem tocar no assunto de política, se amam, não querem brigar, mas uma não admite um pano de prato ser censurado e a outra não suporta viver com aqueles dizeres suspensos no ambiente.


Minha esposa entra na cozinha e vê o pano de prato de costas enquanto minha sogra está lavando a louça. Pergunta: “Mãe, você por acaso virou o pano de prato”? Ela responde que não. Cínica. Minha esposa desvira o coitado. Quando ela sai da cozinha o pano de prato é virado novamente de costas.


Eu observo tudo como um jornalista correspondente de guerra, procuro não falar nada, não dou opinião, só tomo nota. Não quero causar a crise de mísseis cubanos e ser responsável pela terceira guerra nuclear. O pavio é curto. O território é minado e eu sou Hamilton Ribeiro no Vietnã.


Estou vivendo sob uma tensão inominável.


Chegada a hora do almoço sentamos todos frente a frente, um olhando para o outro. O silêncio era tanto que dava para ouvir uma música de filme de faroeste ao fundo: “taram taram, tam, tam...”. Desde que minha sogra chegou aqui em casa o papo é curto. Acho que ela se sentiu afrontada com o pano de prato. Minha esposa me jurou que não foi de propósito, que foi um acaso ser aquele o pano de prato a ser usado na semana. Cínica também?


Não sei o que fazer. As vezes sinto vontade de chutar o pau da barraca e perguntar quem concorda com o tratamento precoce de COVID com cloroquina. Seria obliterado. Soterrado por uma briga ausente de sentido e sem fundamento nos laços familiares.


Este é o relato de uma guerra que muitos brasileiros travam diariamente em suas casas hoje.


Diogo Braga para o jornal da manhã. Que Deus tenha piedade de nossas almas.

22/05/2021 (Crônica n° 65)

Diogo Braga Crônicas



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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!

Diogo Braga.

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