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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

FELICIDADE É UM OVINHO A MAIS POR DIA (Crônica n° 03)

Atualizado: 17 de abr. de 2021

Meu pai foi menino do interior, criado com galinha no quintal e com o pé tingido de vermelho da terra fértil da zona da mata de Minas Gerais.


E ele, como foi para a cidade grande “ganhar a vida”, sempre teve a preocupação com o fato de eu e minha irmã termos sido criados em um ambiente urbano e sem este contato próximo com a natureza que ele tivera quando criança.


Ele tinha receio que crescêssemos como aquelas crianças que acham que o ovo vem da caixinha do supermercado. Por isto, sempre que ele podia nos levava para a roça ou chegava em casa com algum animal diferente para a gente cuidar. Um dia ele trouxe para casa uma gaiola com três codornas. Eu e minha irmã ficamos curiosos, afinal: “como é que podia existir uma galinha tão pequena?!”


Os bichos ficavam em uma gaiola na varanda do apartamento e eu e minha irmã as visitávamos religiosamente de manhã, ao acordar, e a tarde, após voltar da escola, para verificar e repor comida e água das codornas.


É lógico que botamos nomes nas três e que tentávamos chamá-las para fazer carinho, mas elas nunca chegavam perto dos nossos dedinhos enfiados pela gaiolinha. Meu pai nos explicou que elas não eram como cachorro e gato, que eram animais domesticados, mas não domésticos e que eram criadas para botar ovos que nós consumimos.


E imagine qual foi nossa surpresa quando em um dia que chegamos da escola vimos lá na gaiola que uma das codornas tinha botado um ovinho. Eu me impressionei com o tamanho, era muito pequeno, na minha cabeça eu imaginava que elas botariam ovos do tamanho das de galinhas!


Meu pai pegou o ovo e fizemos ele estrelado na frigideira. Eu e minha irmã cortamos aquele pequeno ovo ao meio e cada um comeu a sua pequena parte desejando que no dia seguinte aparecessem mais alguns na gaiola.


No dia seguinte acordamos e fomos direto olhar as codornas e elas tinham botado mais dois ovos! “Que sorte a nossa!” Pensei. Desta vez o café da manhã foi um luxo, dois ovinhos de codorna estrelados, um para mim e outro para minha irmã.

E assim continuou esta rotina.


A cada dia que se passava ao verificar a gaiola das codornas a gente encontrava MILAGROSAMENTE um ovo a mais que no dia anterior. A cada dia que se passava era uma nova surpresa e uma felicidade que tínhamos ao verificar a gaiola das codornas.

Uma vez elas chegaram a botar 20 ovinhos!


Até que um dia, ao chegar da escola, fui verificar as codornas e vi o meu pai com uma caixinha de ovos de codorna do supermercado colocando os ovos na gaiola.


ERA TUDO UMA FARSA! Meu pai havia me enganado!


Na época eu e minha irmã ficamos bravos com o meu pai, mas hoje eu fico imaginando como ele deve ter se deleitado com o riso fácil e a felicidade barata diária que ele podia enxergar nos nossos olhos a cada vez que víamos que as codornas tinham botado mais ovinhos.


Com toda esta brincadeira ele, de certa forma, nos colocou em um maior contato com a natureza, nos ensinou que o ovo não é só o da galinha e que não vêm da caixinha do supermercado, mas nos ensinou também que a felicidade pode custar muito pouco, um ovinho a mais por dia.


08/03/2019 (Crônica n° 03)

Diogo Braga Crônicas



Link para o vídeo no YouTube: https://youtu.be/cLs-Y7PFDQM

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