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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

ESCREVO FEIO POR REBELDIA (Crônica n°31)

Atualizado: 17 de abr. de 2021

Eu escrevo tão feio que dói. Mas eu escrevo feio por pura rebeldia.


Quando eu era criança minha mãe me fazia passar horas intermináveis na frente de um caderno de caligrafia pra escrever frases e mais frases. Se eu errasse a ortografia de alguma palavra eu ganhava um belo puxão de orelha e mais algumas horas sentado escrevendo repetidamente aquela fatídica palavra.


Eu ficava ali de corpo, sentado em frente àquele caderno escrevendo como um robô, mas a minha mente flutuava pelo quarto, arrebanhava todos os brinquedos e articulava um motim. Na minha cabeça os meus brinquedos eram o meu exército revolucionário que iria me ajudar a escapar.


Um dia fechamos a porta do quarto silenciosamente, pegamos os lençóis e cobertores da cama espalhados, amarramos uns nos outros e fizemos uma corda. Eu morava um andar logo acima do play, então não era tão alto. Joguei um travesseiro no chão lá em baixo pra proteger os meus companheiros da queda.


Eles foram primeiro. Pularam e flutuaram delicadamente no ar com os seus paraquedas de sacos plásticos. Eu fui depois, amarrei a corda improvisada no pé da cama e desci cuidadosamente firmando minhas mãos nos nós cuidadosamente elaborados com minhas mãozinhas de uma criança de 7 anos.


Tá bom, tá bom... A verdade é que eu não fiz nada isto.


Eu ficava mesmo lá sentado por horas intermináveis escrevendo naquele caderno de caligrafia. Eu nunca conseguiria ter feito aquilo de fugir pela janela, simplesmente porque ela tinha uma grade de ferro enorme. Seria impossível. Na MINHA cabeça eu desci pro play, encontrei meus amiguinhos e vivi aventuras intermináveis.


Mas é por isto que todo aquele ritual pra tentar deixar a minha caligrafia mais bonita NUNCA FUNCIONOU e é pra mim a prova cabal, indiscutível, que rigor em demasia nem sempre é a solução. Não dá pra subestimar a imaginação de uma criança, ela tem é que entender o porquê das coisas, por mais que isto seja uma tarefa dificílima.


Na época eu não entendia o valor daquilo e, talvez nem entenda hoje, pois o impacto de uma caligrafia horrenda não é assim tão grande em um mundo onde se usa quase sempre o computador para escrever.


No entanto, é verdade que escrever com uma letra caprichada pode demonstrar características muito positivas sobre a personalidade de uma pessoa. Quando alguém lê um texto com uma letra bonita, é natural que pense logo em uma pessoa igualmente bonita, que possui cuidado com as coisas, que é dedicada e organizada. Quando lê um texto com uma caligrafia horrorosa, é natural que imagine uma pessoa desleixada e que atribua diversas características negativas a quem escreveu.


E isto é um reflexo do mundo de aparências que vivemos, onde parecer ser é tão, ou mais, importante que ser de fato. Então, quando eu escrevo hoje, faço questão de escrever feio. Faço garranchos, letras assimétricas que se sobrepõe umas nas outras. As maiúsculas são como dinossauros a atacar as outras que correm desesperadas pra salvar suas vidas de monstro tão horrendo.


Escrevo tão feio que mesmo minha letra de forma é repulsiva. Mas eu escrevo assim é para ir contra todo este sistema. Não quero é compactuar com esta cultura de aparências. No meu entendimento, o importante é estar legível, fazer das concordâncias corretamente e, principalmente, transmitir as ideias de forma clara.


O importante é o conteúdo do que foi escrito. Por isto, eu escrevo feio. Não é por ser desleixado e nem quero ser julgado assim. Eu escrevo feio por que sou rebelde.


23/03/2018 (Crônica n°31)

Diogo Braga Crônicas


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