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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

DA CAIXINHA DO SUPERMERCADO (Crônica n°29)

Atualizado: 17 de abr. de 2021

Meus pais sempre contavam um caso à gargalhadas. Que minha irmã fora questionada por um exercício da escolinha sobre qual era a origem do leite que nós tomávamos e que a resposta dela tinha sido: “Da caixinha do supermercado”.

Então, por esta e por outras os meus pais eram preocupados com as comodidades e alienações que a vida em uma cidade grande impõe às pessoas. E eu me lembro que um dia meus pais arranjaram uma forma de nos ensinar na prática que o leite vinha da vaca, o ovo da galinha e que os vegetais brotavam da terra.


Eles arranjaram uma visita a uma fazenda. No dia da visita acordamos às 5 horas da manhã. Eu e minha irmã fomos devidamente aparamentados com botas e, para desespero dos meus pais, pisamos em todos os montes de bosta de vaca ressecada que encontramos fazendo emanar aquele cheiro do capim digerido em decomposição.


No entanto, aquele não era um cheiro ruim. Era um cheiro característico de roça que se adequava perfeitamente ao ambiente e à situação. Eu me lembro que foi um dia de diversas descobertas. Eu vi pela primeira vez o sol emanando seus primeiros raios solares, descobri a neblina que como um cobertor repousava sobre o pasto e, perguntando ao meu pai se havia chovido no dia anterior, descobri o porquê de as plantas acordarem molhadas: era o orvalho!


Nos dirigimos ao curral e algumas vacas já estavam sendo ordenhadas à mão com seus respectivos filhotes por perto. Fomos para uma delas que já estava separada para nós e um trabalhador local nos ensinou a técnica correta para retirar o leite da teta da vaca. Meu pai já tinha me contado que dali iria sair leite, mas eu ainda tinha as minhas dúvidas.


Pra mim era impossível que algo tão limpidamente branco fosse coletado em um balde sujo a poucos passos da onde havíamos pisado em bosta seca. Estávamos os 4, pai, mãe e dois filhos, agachados no pé da vaca cada um em uma teta, e começamos a tentar ordenhá-la. Meu pai, que teve uma infância na roça, conseguiu de pronto. Minha mãe logo conseguiu também, já eu e minha irmã demoramos alguns minutos após inúmeras tentativas frustradas de nossas mãozinhas desengonçadas.


E era verdade! “O leite vêm das vacas mesmo!” Eu disse animado pra minha irmã. E, de repente, esguichou um jato de leite na minha cara! Eu notei que tinha vindo de um furo na lateral da teta que a minha mãe estava ordenhando e eu fiquei bravo! Muito bravo! Ainda mais porque minha irmã estava gargalhando, me CHACOTANDO!!! E, embora tivesse sido um acidente, minha cabeça infantil só sossegou depois que me vinguei. Apertei uma teta e jorrei leite na cara da minha irmã!


E é no contexto dessa confusão que o meu pai se levantou e tirou uma foto que hoje integra o álbum de família e na qual eu estou bravo fazendo língua pra câmera. Naquele dia eu e minha irmã aprendemos muitas coisas. Meu pai explicou que aquele leite tirado ali depois de fervido, mesmo em um ambiente aparentemente sujo, tinha menos conservantes e que, por isto, era muito melhor que o da caixinha do supermercado.


Ele explicou também que aqueles trabalhadores acordavam todo dia antes do sol nascer pra tirar o leite das vacas e que o mesmo empenho era necessário na colheita da horta e das plantações.


Naquele dia eu e minha irmã aprendemos que nem sempre o que é industrialmente asséptico é melhor, que as aparências enganam e que há muito trabalho por trás de qualquer alimento que chega às nossas mesas. O leite não vem da caixinha do supermercado, hoje eu e minha irmã sabemos, mas naquele dia recheado de descobertas eu aprendi muito mais que isto.


14/05/2019 (Crônica n°29)

Diogo Braga Crônicas


Crônicas em podcast, Spotify (Braga Crônicas), Instagram (@DiogoBragaCronicas) e Youtube (Braga Crônicas). Medium (@bragacronicas).


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