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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

Culpa Do Antônio Prata (Crônica n°47)

Atualizado: 19 de mai. de 2021

Antônio Prata tem uma escrita particular. Ele escreve crônica, mas, por vezes, quando o leio, me sinto a beira de um palco de um show de stand-up comedy. Seus textos são recheados de bom humor e você sempre fica esperando uma piadinha brotar (isto quando o texto inteiro não é uma piada), na iminência do riso, como se estivesse ouvindo um set-up gigante.


Mas um dia me deparei com algo diferente, um texto de título “Sapatos”. Eu estava na sala de um hospital velho de Belo Horizonte, esperando pra fazer minha doação de sangue, admirando as paredes amarelas encardidas da década de 60 e vez ou outra lendo uma crônica.


Quando lia a crônica “Sapato” do Prata, algo inesperado, meu olho fico pesado e eu me inclinei pra trás na cadeira olhando para o teto, também encardido, fazendo as lágrimas se acumularem nas pálpebras para não escorrerem e escancarar para aquela multidão de três pessoas em volta que eu estava chorando.


Minha esperança é que as lágrimas secassem e eu pudesse seguir com a vida como um “vitorioso homem que não chora”. Mas o teto foi ficando embaçado enquanto mais lágrimas brotavam e se acumulavam. Então, quando eu já não podia mais enxergar, uma moça da sala da frente gritou ”Diogo” e eu tive que desinclinar minha cabeça, deixar as águas escorrerem pelo meu rosto e me apresentar à minha vez de doar sangue. A recepcionista que me chamou perguntou se estava tudo bem e eu apontei para o livro falando que era culpa Do Antônio Prata. Ela sorriu.


O texto me pegou desprevenido. De guarda baixa. Como ousa Antônio Prata me cativar com tantos textos engraçadinhos, com tantas piadolas e, de uma hora pra outra, sem mais nem menos, me fazer chorar em público? No meio daqueles textos bem humorados uma melancolia, uma profundidade, uma reflexão séria que me fez lembrar do meu pai que, assim como tio Estevão do texto, tinha suas manias. Só usava calças ou bermudas com bolsos laterais nas coxas.


Aquele texto do Antônio Prata me fez lembrar que a melancolia nos é cara, não só as alegrias e gargalhadas,

e que não há problema em deixar as lágrimas correrem. Acumular lágrimas nas pálpebras só nos faz enxergar o mundo embaçado. Culpa Do Antônio Prata.


09/02/2021 (Crônica n° 47)

Diogo Braga Crônicas



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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!


Diogo Braga.

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