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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

CORAÇÃO DE QUARENTENA (Crônica n° 30)

Atualizado: 17 de abr. de 2021

Estamos vivendo tempos difíceis de pandemia de Covid-19 neste início de 2020 e eu estou trabalhando em casa remotamente, fazendo quarentena, sem contato com o mundo exterior. O coração pode pesar as vezes. Pesa. Eu fico a maior parte do dia trancado no quarto em frente ao computador. Mas esta experiência está sendo curiosa.


Minha filha não está indo à escolinha e como qualquer criança, demanda muita atenção e fica atenta a qualquer movimentação diferente na casa. Quando tenho que sair para ir ao banheiro tenho que ser silencioso. Giro a maçaneta com cuidado, me ponho na ponta dos pés e sigo a passos curtos. São dois metros looongos, vou com cuidado, me desloco num silencio de invejar qualquer ninja da era Sengoku.


Mas aparentemente minha filha também tem uma audição treinada nas artes das sombras e, então, surge correndo pelo corredor: “Papai, papai”! Pego no flagra! Ela agarra a minha perna como um carrapato e fica lá até eu pegar ela no colo, fazer uma cosquinha, procurar o gatinho na janela do vizinho, até ela distrair e eu poder me esgueirar para o meu quarto de novo. É essa brincadeira de pega-pega o dia inteiro.


Mas nem tudo são flores, porque tenho meus afazeres e, por vezes, o mau humor incorpora como um sapo rabugento pesando o coração. As vezes ela fica batendo na porta chorando e gritando: “Papai, papai”! Quando o sapo não está no meu peito, tudo certo, deixo ela entrar, ela faz uma bagunça na cama às minhas costas e depois de um tempo sai. Quando o sapo está eu fico irritado.


Mas qual é a função de um vivente se não tentar galgar beleza dos momentos difíceis? Eu chuto o sapo pra longe e tento tirar proveito da situação. Quando o coração aperta ou bate aquele tédio do trabalho repetitivo eu me levanto pra encher o copo d’água ou pegar um café, finjo que estou andando na ponta dos meus pés, chego bem perto da onde minha filha está e... pirragueio de propósito ou faço algum barulho qualquer que entregue a minha localização.


Então surge ela correndo e gritando de sorriso largo: “papai, papai”! Pego no flagra! Ela agarra a minha perna como um carrapato e fica lá até eu pegar ela no colo, fazer uma cosquinha, procurar o gatinho na janela do vizinho. O gato quase nunca aparece, mas no meu interior aparece uma energia inexplicável. Eu me sinto revigorado! Um fiapo de beleza nesta situação complicada.


Uma hora ela distrai e eu me esgueiro de novo pra dentro do quarto. Fico de sorriso no rosto doido pro trabalho acabar, sei esteou fazendo quarentena, sem contato com o mundo exterior e trancado no quarto em frente ao computador, mas tenho a certeza que o meu coração é, naquele momento, LEVE como uma pluma.

15/05/2020 (Crônica n° 30)

Diogo Braga Crônicas


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