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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

COMO VOCÊ TOMA O SEU CAFÉ? (Crônica n° 69)

Atualizado: 3 de nov. de 2021

Eu não gosto de café. Gosto do cheiro, gosto do ritual de preparo, gosto do efeito que ele provoca, mas não gosto do gosto nem do vício.


Gosto, sobretudo, por ser o café algo simples e puro, de uma cor tão uniforme que hipnotiza pelo olhar nos fazendo perder dentro daquela imensidão negra.


Mas, para um homem-criança como eu, não presta qualquer paladar amargo que não seja cerveja. Sou mais afeito aos sabores docinhos. Por isto, quando tomo café, aterro aquele mar negro com açúcar até o transformar em um caramelo. Coloco tanto açúcar que ele se acumula numa camada ao fundo da caneca/xícara que, de tão pesada, torna árdua a tarefa de misturar com a colherzinha.


Mas existe uma vantagem em não gostar de café. Como tomo raramente, sou muito suscetível ao seu efeito energizante. Uma xícara cheia é o suficiente para me transformar no coelhinho da duracell, batendo, vibrando, pulando. É uma droga , causa vício. Tire o café de uma pessoa que toma diariamente e ela se tornará impaciente e/ou exausta de abstinência.


Falo isto com a propriedade de quem vem de uma família de adictos. Na minha casa, além do café para a manhã, havia sempre uma garrafa térmica de quinhentos litros enfeitando a mesa da copa para qualquer um que quisesse dar uma bicadinha.


Meu pai e mãe iam lá constantemente tomar suas doses de energia, colocavam dois dedinhos no copo de requeijão e viravam de uma só vez, com a velocidade, e felicidade, de adolescentes tomando shots de tequila. Sempre ao sair de casa meu pai tomava um golinho. E sempre antes de sentar em seu escritório... tomava um golinho. Depois de trabalhar, rumo ao sofá da sala, passava na cozinha e... tomava um golinho. Minha mãe idem. Não vou me repetir. Era um golinho pra cá, uma pra lá, pra todo lado.


Mas eu entendo esta fixação pelo café. O café é tradição brasileira que jorra das lavouras paulistas e mineiras. Já dizia do dito popular que “uma xícara de café não se nega a ninguém”.


E nas estradas de Minas Gerais era comum o cafezin ser grátis a qualquer viajante em qualquer estabelecimento. Me lembro uma vez em viagem do meu pai reclamando do ABSURDO de o terem cobrado por um cafezin.


Hoje o cafezin não é mais grátis, é commodity. Antes só conhecíamos uma modalidade de café: o preto. Hoje há cafés disso, daquilo, e até de cocô de Siriema. O mundo mudou e o café parece ter mudado, mas não.


O café continua simples e puro com seus efeitos e vícios. Por baixo de qualquer camada gurmet de chantily o café continua de uma cor tão uniforme que hipnotiza pelo olhar e nos fazer perder dentro daquela imensidão negra. E abaixo dessa camada negra há, ao menos no meu café, outra camada de açúcar tão grossa e tão pesada que torna árdua a tarefa de misturar com a colherzinha. Não me repreendam, cada um toma o café da forma que quer. E você? Como toma?

09/03/2021 (Crônica n° 69)

Diogo Braga Crônicas




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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!

Diogo Braga.

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