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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

COME MAS NÃO CARREGA (Crônica n°50)

Eu já falei que fazer festa de aniversário no início dos anos 90 não era coisa simples. Era coisa pra amador! Tinha que amar muito! Se fazer uma festa de criança hoje dá trabalho, imagina antigamente quando os docinhos não eram estes industrializados e embalados em tubetes e caixas de acrílico.


Antigamente tinha que fazer tudo, era um esforço coletivo, a família era convocada e uma multidão de gente passava dias assando, batendo, enrolando e dando vida às maiores maravilhas em tons de caramelo e chocolate. Eu já falei isto, mas o que eu não falei foi que nas minhas festas de aniversário todo este esforço familiar era reduzido a pó em questão de segundos.


A mesa do bolo era preparada com toda àquela variedade de cores e sabores e, assim que acabava os parabéns, as crianças transformavam-se leões famintos atacando aquela boca-livre de doces como se estivessem amontoados em uma carcaça de uma zebra! Cada um tinha uma estratégia, uns preparavam copos e pratos descartáveis para encher, outros estendiam a barra da camisa com uma mão e com a outra varriam os doces para aquela bolsa improvisada.


Eu adorava, afinal, era uma bagunça só, risada pra cá, pequenas brigas acolá e minha mãe desesperada ameaçando e tentando fazer as crianças pararem com aquela barbárie. “COME MAS NÃO CARREGA!” Gritava ela correndo de um lado pro outro.


Até que esta frase desesperada virou um bordão.


No ano seguinte meu tio gritou “COME MAS NÃO CARREGA” depois dos parabéns e arrancou gargalhadas de todos os presentes que lembraram do grito do ano anterior. Toda festa tinha esta chacota, alguém gritando e rindo: “COME MAS NÃO CARREGA”! Esta tradição perdurou para o sempre e, inclusive, hoje no meu trabalho quando tem alguma confraternização com boca-livre eu grito “COME MAS NÃO CARREGA”!


Já contei esta história para o mundo todo e não tem um que não ache graça. Minha mãe, coitada, ao gritar “come mas não carrega” se punha com um propósito impossível, uma tarefa mais árdua que os 12 trabalhos de Hércules juntos, afinal, seria impossível exigir uma atitude “civilizada” daquelas crianças.


A verdade é que não se controla a natureza humana. O ecossistema da boca-livre desperta o que é de mais primal e animalesco em nossos instintos. A boca-livre é quando a criança vira animal e o adulto vira criança. É selva e a vontade fazer e participar da bagunça fala mais alto, garanto! E minha mãe passava por aquele ritual todo ano, não importava o que acontecesse ela se punha lá: trabalhando dias a fio pra fazer uma quantidade absurda de doces e depois vê-los sumir em um piscar de olhos.


Mas ela passava por tudo aquilo porque queira nos agradar, eu e minha irmã, afinal, nos amava muito. Amadora mesmo! Então, respeita a boca-livre. Eu sei que o que eu vou te pedir é difícil, pode ir contra alguns dos seus instintos animalescos, mas vai com calma, seja um pouco mais educado nestas bocas-livres. Por traz de uma mesa de docinhos, quase sempre tem o amor de uma mãe sofredora. Então não se esqueça: COME MAS NÃO CARREGA!

(Crônica n°50) 14/06/2019

Diogo Braga Crônicas





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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!


Diogo Braga.

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