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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

BORBOLETOS (Crônica n°39)

Atualizado: 17 de abr. de 2021

Os jovens poetas se debruçam e esmiúçam o tema do amor romântico. Nada como perdurar em texto aquela sensação de borboletas no estômago característica dos primeiros encontros.


E por mais ridícula que seja a imagem de borboletas vivas saracoteando em nossas barrigas, não é ridículo o sentimento que se consolida como uma angústia, uma ansiedade que se instala no estômago. É uma sensação que no ansiômetro tende para o lado positivo, mas é um tema de jovens e EXTREMAMENTE clichê.


Por que clichê? Ora, todos sabem que o amor romântico que gera as famosas borboletas no estômago deriva de uma situação extraordinária. Falar disto é fácil. Difícil é extrair a beleza das coisas mais comuns do dia a dia. Aí se encontra o desafio, talvez mais árduo que os 12 trabalhos de Hércules que lhe concederam a imortalidade.


Louvado seja o poeta velho que versa sobre as pequenezas da rotina! O poeta velho já viveu seus amores românticos e se deleita com seus amores serenos. O poeta velho tem as preocupações de um adulto. E, principalmente, o poeta velho tem que pagar boleto. E o pagar boleto também gera uma sensação semelhante às borboletas no estômago, eu a chamo de borboletos, é uma angústia, uma ansiedade que se instala no estômago por saber o que se dará no futuro próximo: a ausência do dinheiro.


É uma sensação rotineira, todo mês ela aparece e no ansiômetro tende para o lado negativo, mas se o velho é poeta ele trava toda vez uma batalha dura para tirar o máximo de poesia da peleja, como uma metonímia da própria vida.


Imaginem só borboletos, pequenos monstrinhos voadores com asas de papel timbrado e abundantes de códigos de barras invadindo a casa pela caixinha dos correios e pelas frestas da porta da sala.


O velho poeta saca a caneta e brada “em guarda”, em quanto o crediário da tv de plasma acelera em direção a sua jugular. O poeta faz um movimento de meia lua com os pés, desvia bailando enquanto o crediário espatifa em porpurina na parede. Os 5 netos amontoados no sofá gritam em alegria! “Êêêêêêêêêêê!”


Ele estica uma mão e captura a conta de luz fazendo com ela um aviãozinho de papel. Arremessa o aviãozinho longe que se transforma no ar em uma flecha atravessando o coração do aluguel. Com o pé estilhaça a conta de luz que rastejava querendo subir no seu pé a transformando em confete. A fatura do cartão dá um rasante e acerta a pancinha do velho que cai com a mão no quadril reclamando da artrite. “Ai ai minha bacia”!


Os netos assistindo de camarote roem as unhas. A fatura do cartão é o pior dos borboletos, se alimentando de todas as coisas inúteis compradas a promessa do crédito se metamorfoseia como um robô gigante de desenho japonês e cresce quintuplicando de tamanho.


A fatura encara o velho de cima pra baixo e ele, deitado ao chão como um inseto prestes a ser esmagado, arrasta a mão tateando com os dedos. O borboleto rosna um quase inaudível “agora você me paga”, levantando suas garras para desferir o golpe final. O velho fecha a mão e pega o resto do confete da conta de luz no chão e arremessa nos olhos daquele monstro que fica cego e atordoado como Van Damme no Grande Dragão Branco.


O velho, então, se levanta e desfere o golpe derradeiro com sua caneta, transformando o borboleto em poesia. Os netos gritam e vibram a vitória que os fez emocionar. É tudo isto o que ele queria. Em vez de glorificar as já glorificadas borboletas no estômago, lutou o bom combate contra as armadilhas do ordinário.


Assim como Hércules, o velho poeta viverá eternamente, seja na memória de seus netos ou de quem mais se importar com o que escreve.

07/11/2020 (Crônica n°39)

Diogo Braga Crônicas


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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!


Diogo Braga Crônicas

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