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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

AUTENTICIDADE (Los Angeles - 2014)

Em 2014 eu fui pra Califórnia. Los Angeles. E lá eu passei um tempo ótimo como turista. Eu visitei a Hollyowood bulevar com seus copycats que são pessoas que se fantasiam como algum famoso ou personagem de filme e se apresentam na rua em troca de algum trocado. E entroncado em uma multidão asfixiante eu conheci grandes personalidades: a Marylin Monroe, o Michael Jackson, o Samuel L Jackson. E conheci também grandes super heróis: a Mulher Maravilha, o Homem Aranha o Wolverine, a Tartaruga Ninja e o Pinto Gigante (este eu não sei de que filme é).


Mas, aquelas grandes personalidades e super heróis não transpareciam o glamour da imagem de seus originais, afinal eram cópias de um mundo cinematográfico. A Hollyowood bulevar é uma rua que se fantasia de cinema. E a cidade dos anjos toda me pareceu assim: uma cidade de parques temáticos que se misturam com a realidade em simulacros. Píeres shopping centers que se fantasiam de bulevar. Cenografias que se fantasia de patrimônio histórico. Edifícios se fantasiam em esculturas alegóricas. E nós babamos por todo este glamour, afinal, vemos muito este tipo de cenário nos filmes e séries americanas.


Eu babei também, mas tenho que confessar que no fundo aquilo tudo me dava uma pontada de incômodo. Entenda: eu particularmente não me incomodei com os parques temáticos que se apresentavam como parques, tais como a Disneyland e o Six Flags, me incomodei com as atrações turísticas que se apresentavam como autênticas, mas que eram, realmente, outra coisa.


E tendo isto em mente, nós buscamos consumir um pouco de uma cultura genuinamente americana, não só a cultura americana feita para consumo dos turistas, então fomos cafeterias e lanchonetes tradicionais de lá. Comemos, nos empanturramos, fomos em praias de areia preta e fomos no famoso drive trou do Randy Donuts e sua espalhafatosa rosquinha gigante no telhado. Falamos com o Mickey. Samara brigou com o Mickey (aparentemente os americanos também fazem isto por lá).


E no meio de toda esta experiência eu me deparei com uma cena de autêntica felicidade, bem no lugar mais artificial que podia existir: o pátio aberto de um shopping Center ao lado da Hollyowood Bulevar. Neste pátio tinham diversos pequenos buracos salpicados no chão de granito e deles botavam jatos d’águas que dançavam ao som de uma débil música ao fundo. Seria mais uma atração fabricada artificialmente se não fosse pelas crianças que também dançavam sobre os jatos d’águas. Do chão não brotava água, botava felicidade e as crianças brincavam como se estivessem no quintal de suas casas, pulavam na água, caíam no chão e rolavam sujas.


A maioria dos turistas ao redor passavam sem perceber, outros olhavam recriminando e poucos contemplavam a cena de sorriso aberto. As crianças agiam muito diferente daqueles ao seu redor. Os turistas vestindo roupas viscosas, quase sempre de grifes famosas e aquelas crianças ali brincando de uma forma (entre muitas aspas) “““““incivilizada”””””. Os filhos dos turistas que passavam engomadinhos babavam como se estivessem de fronte à sobremesa mais gostosa, contemplando a possibilidade de entrar na bagunça. Nada feito pra eles.


Uma irmã mais velha corria ensopada de um lado ao outro do chafariz e no seu colo um neném de fralda. A cada carreira que a irmã dava o neném recebia espirros de água na sua cara que fazia reluzir em cada gota suspensa uma gargalhada que escancarava seus quatro dentinhos recém nascidos, dois em cima, dois em baixo.


Autenticidade é isso.


Viajar é bom, eu me diverti bastante naquela viagem pra Los Angeles e me deixei muito ser seduzido por toda aquela atmosfera fantástica, afinal eu também acho que isto faz parte da experiência do turista, mas temos que sempre estar atentos pra não perder a capacidade de distinguir o que é ou não autêntico. Se perdermos a capacidade de reconhecer a autenticidade corremos o risco de nós mesmos nos tornarmos inautênticos por essência, um copycat que chega em casa e não tira a fantasia. E autenticidade não é Shopping center ou parque temático.


Autenticidade é o sorriso banguela daquela menina.

14/06/2019 (Crônica n° 16)

Diogo Braga Crônicas



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