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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

APOLOGIA AO CIGARRO DE QUEIJO (Crônica n° 13)

Atualizado: 19 de mai. de 2021

Com um cigarrinho de queijo no bolso da camisa eu me dirigi à área de fumantes.


Era uma festa no Rio de Janeiro, a música alta tocava um funk estridente, o cheiro de suor da multidão dançante empesteava o ambiente e eu estava observador e curioso. Queria me misturar, estudar etnograficamente aquele grupo intrigante de fumantes, mas não entregar meu corpo e alma àquele hábito de consequências nefastas pra saúde.


Saí do edifício e adentrei em uma área externa cercada. Ali as pessoas conversavam e a música se colocava como uma suave trilha sonora ao fundo. Me escorei de costas com a sola do pé na parede ao lado de um grupo de três que papeavam.


Saquei o biscoito de queijo em formato de palitinho do bolso da camisa, assentei ele pendente nos lábios e cutuquei um rapaz que estava do: “Você tem fogo?” Ele me olhou confuso e meio sem saber o que fazer pegou o isqueiro e acendeu. Aproximei meu cigarrinho na chama e dei duas, três tragadas no queijo.


“Ah...” Fiz um muxoxo tentando fazer a cara de alívio de um dependente que encontra sua velha amiga nicotina.


Tive certeza que ninguém percebeu que eu era um intruso. Vi que ele fumava um palheiro e perguntei da onde ele era e comecei uma conversa sobre como este tipo de cigarro é incomum no Rio de Janeiro. Logo estava enturmado naquela roda de fumantes. De tempos em tempos eu levava os dois dedos ao cigarro e dava uma tragada longa, fazia bico com a boca e soltava uma fumaça densa.


Conheci a vida de todos, aquele que falei primeiro era de Bom Despacho, Minas Gerais, e cursava Direito, por isto o palheiro que é um hábito muito comum do mineiro, a menina do grupo estudava medicina, morava no Rio e namorava o outro que era advogado e estava passando uma barra em casa com a morte precoce do pai.


Com o passar do tempo o meu cigarro foi diminuindo por conta das pequenas mordiscadas que dava no biscoito.


Aquele grupo papeava e se olhava, observava ao redor, respirava o ar da cidade e papeava mais. E haviam vários outros grupos como aquele em um ritual semelhante, como uma roda tribal em torno da fogueira. Uma fogueira que paira alguns dedos a frente de cada rosto.


Fumar é um hábito interessante, é aparentemente um hábito solitário, mas na verdade quase sempre envolve um grupo que já possui algo em comum, o vício. Os fumantes conversam entre sim em uma espécie de confraria, sociedade secreta que compartilha informações valiosas, e como têm que sair do ambiente fechado pra baforar suas fumaças, são exímios observadores da paisagem e das coisas.


Cada tragada é uma oportunidade, um tempo a mais pra pensar, filosofar e elaborar as ideias antes de falar. E disso o mundo precisa muito! Naquele meu papo com àquele grupo eu escutei considerações lindas sobre como a fumaça que sobe das cinzas na ponta do cigarro parecem ninfas bailando, sobre como a cada tragada o espírito se renova com a limpeza interna da alma. Todo fumante é um Flâneur, um poeta em potencial que, por conta do vício, se entrega à pausa e à contemplação em um mundo de ritmo frenético.


Me integrei àquele grupo como uma oportunidade de estudo antropológico e saí com a vontade de me entregar de alma, não de corpo, pois é de conhecimento geral os males à saúde do hábito de fumar e não os quero.


Faço apologia, então, ao hábito de fumar cigarrinhos de biscoito de queijo.

Pode parecer idiota, mas acredite: ninguém se importa com a diferença. Quando eu acabei o meu cigarro, o mineiro do palheiro me pediu: “Me dá um deste seu, nunca provei desta marca”. Tirei um do bolso da camisa e o estendi.


Ele botou na boca, acendeu com o isqueiro, deu uma tragada longa lançando a fumaça ao céu e disse: “Delicioso. Sabor parmesão.”

09/09/2019 (Crônica n° 13)

Diogo Braga Crônicas



Crônicas em podcast, Spotify (Braga Crônicas), Instagram (@DiogoBragaCronicas) e Youtube (Braga Crônicas).



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