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  • Foto do escritorDiogo Braga Crônicas

A RUA QUE NINOU MINHAS FILHAS (Crônica n° 79)

“Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ela ninar”. Catava eu para minhas filhas andando pra lá e pra cá na varanda sobre a avenida Afonso Pena, Belo Horizonte.


Não existia lugar melhor pra fazer minhas filhas bebezinhas dormirem, só eu, elas e a rua que é uma avenida, mas eu chamo de rua porque sou chegado. Era meu lugar de segurança. Quando ninguém estava conseguindo fazer as bebês dormirem eu ia pra varanda com quase 10 metros de comprimento e estreita, 80cm de largura, e ficava andando com elas no colo. Dormiam em poucos minutos.


E eu acho que dormiam porque a rua cantava também. Gostavam do barulho. O melhor ruído branco que eu poderia conseguir, melhor que qualquer aplicativo, que qualquer som do youtube. O som das pessoas, dos carros passando. Os amigos se encontrando na pizzadria da frente. O barulho do bate-papo regado a álcool no bar da Dalva que fechou na pandemia (uma pena). Os encontros de enamorados embaixo das sombras dos ipês-rosas floridos na primavera. As confusões do bêbado que sempre veste a camisa do Atlético Mineiro, este falava alto, gritando e impondo a magnificência do Galo. E quando ficava de madrugada... o barulho das trans que tentavam sobreviver na perigosa vida de ter que se vender, por um fio no meio fio da calçada.


Todo um ecossistema se desenvolvia ali e eu, lá de cima, observava enquanto desempenhava a árdua, porém nobre, tarefa de botar neném pra dormir. E ninguém tira da minha cabeça que elas dormiam com a cantoria da rua. Com o tempo desenvolvi uma intimidade com aquela rua, pelo menos aquele pedaço sob os meus pés, como se ela fosse uma velha amiga.


Eu cantava que “se a rua fosse minha eu mandava ela ninar”, mas a verdade é que eu nunca precisei mandar nada, ela fazia de bom grado, sem precisar pedir. E agora que estou de mudança eu só penso que fica uma gratidão pela ajuda.



11/10/2021 (Crônica n° 79)

Diogo Braga Crônicas



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No mais, meus votos de uma vida com gosto de açúcar nos lábios e até a próxima!


Diogo Braga.


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